Amorim critica EUA em Moscou e alerta para risco de intervenção no Brasil.
© Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Em meio a debates sobre segurança global, o Brasil, por meio do assessor especial da Presidência da República, embaixador Celso Amorim, emitiu um alerta contundente contra qualquer tentativa de utilizar a classificação de organizações narcotraficantes como terroristas como um pretexto para intervenções externas. A declaração foi feita em Moscou, durante o Fórum Internacional de Segurança, após os Estados Unidos designarem grupos de narcotraficantes brasileiros com o rótulo de terroristas, gerando preocupações sobre a violação da soberania nacional.
O diplomata brasileiro enfatizou que, embora o combate ao crime organizado seja uma prioridade inegável, a cooperação internacional para esse fim deve respeitar integralmente a soberania das nações. Em sua fala, o representante do governo reforçou a posição do país:
“Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou o assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Abordagem Brasileira sobre Narcotráfico e Terrorismo
Em sua participação no discurso de abertura do Fórum Internacional de Segurança, Celso Amorim aprofundou a distinção entre as duas categorias criminosas. Ele argumentou que, apesar da necessidade de máxima energia no combate ao crime organizado, a equiparação direta ao terrorismo não contribui para a eficácia das estratégias. Segundo o embaixador, é fundamental entender as motivações por trás de cada tipo de criminalidade para desenvolver respostas adequadas.
“O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação. Equiparar o crime organizado ao terrorismo, no entanto, não ajuda. Compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todos os tipos de crime”, pontuou o embaixador.
Essa postura reflete a rejeição consistente do governo brasileiro à equiparação do narcotráfico com terrorismo, uma vez que tal paralelismo é frequentemente visto como uma via para justificar intervenções estrangeiras. Especialistas em relações internacionais, terrorismo e segurança pública também compartilham dessa apreensão, alertando que a categorização de facções criminosas como terroristas pode expor o Brasil a futuras ações dos EUA em seu território.
Histórico de Intervenções dos EUA na América Latina
A preocupação brasileira encontra eco em um histórico de ações dos Estados Unidos na América Latina, muitas vezes justificadas sob o manto do combate ao terrorismo ou ao narcotráfico. Exemplos recentes e passados ilustram como essas classificações podem ser usadas para legitimar cercos econômicos, tentativas de desestabilização ou mesmo incursões diretas.
Um caso notório é o da Venezuela, onde o presidente Nicolás Maduro foi acusado de comandar uma suposta organização narcotraficante, levando à classificação do país como um “narco Estado”. Essa designação, amplamente rejeitada por especialistas, serviu de base para uma operação que culminou na tentativa de captura de Maduro em Caracas, em janeiro deste ano. Contudo, os EUA posteriormente recuaram na associação de Maduro ao suposto Cartel de Los Soles, cuja própria existência como facção criminosa é questionada por diversos analistas.
Outro exemplo é Cuba, que os EUA persistem em apontar como um “país que apoia o terrorismo”. Tal classificação é amplamente rejeitada pela maioria da comunidade internacional, que não encontra provas ou indícios que a sustentem. No entanto, essa designação continua a ser o principal fundamento para o bloqueio econômico e energético imposto à ilha, com uma população de quase 11 milhões de habitantes, gerando sérios problemas sociais e humanitários. A análise desses precedentes reforça a cautela brasileira em relação à designação de grupos de narcotraficantes como terroristas, temendo que tal medida possa abrir margem para a violação da soberania nacional sob um pretexto similar.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-05/pretexto-para-intervencao-e-inaceitavel-diz-celso-amorim
