USP de SP aponta maior risco de morte por Chagas pós-cirurgia cardíaca
© Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil
Pacientes diagnosticados com doença de Chagas enfrentam um risco de mortalidade significativamente elevado após procedimentos cirúrgicos cardíacos, superando a taxa observada em indivíduos com outras condições do coração. Esta alarmante conclusão emerge de um estudo aprofundado conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), acendendo um alerta para a necessidade urgente de aprimorar os protocolos de cuidado a essa população vulnerável.
A pesquisa, que analisou retrospectivamente dados de atendimento no renomado Hospital das Clínicas, em São Paulo, revelou um padrão preocupante: o risco de óbito no pós-operatório é 2,4 vezes maior para quem possui a doença de Chagas em comparação com outros pacientes cardiopatas. Neste grupo específico, a taxa de mortalidade geral após a cirurgia atinge um impactante percentual de 36%.
Desafios no Cuidado aos Pacientes com Chagas
A gravidade dos achados sublinha uma carência no sistema de saúde, conforme apontado por um dos responsáveis pelo estudo. “O estudo reflete que é necessário melhorar o cuidado em saúde do paciente com doença de Chagas de uma forma geral, considerando que a grande maioria dessa população é atendida no Sistema Único de Saúde (SUS)”, enfatiza Rodrigo Melo Kulchetscki, doutorando em cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP e coautor da pesquisa.
Para os cientistas envolvidos, os resultados indicam a premente necessidade de desenvolver abordagens de acompanhamento mais específicas para os indivíduos afetados pela cardiopatia chagásica. O aumento da mortalidade, notavelmente, não está diretamente ligado à maior incidência das arritmias cardíacas em si, mas sim a outros fatores. A investigação aponta para causas não cardíacas, diretamente relacionadas à complexidade inerente às intervenções cirúrgicas necessárias.
A Complexidade das Cirurgias em Chagas
A doença de Chagas, uma condição crônica desencadeada pela infecção do protozoário Trypanosoma cruzi — transmitido principalmente pelo contato com fluidos ou fezes do inseto barbeiro —, provoca sobrecarga e lesões em órgãos vitais como o coração e os intestinos. As lesões cardíacas, em particular, podem comprometer a função do órgão, levando a arritmias graves e potencialmente fatais. O tratamento para reverter essas lesões frequentemente envolve a ablação por cateter, um procedimento cirúrgico que “queima” as áreas afetadas, comum também em outras cardiopatias.
Contudo, o estudo destaca que as operações para pacientes com doença de Chagas demandam um acesso à camada externa do coração em quase 80% dos casos, um procedimento consideravelmente mais intrincado. Em contraste, pacientes com cardiopatia isquêmica, por exemplo, exigem esse tipo de intervenção em apenas 15% das ocorrências. Essa maior dificuldade técnica eleva drasticamente os riscos de complicações e instabilidade clínica durante a cirurgia, culminando no aumento da mortalidade.
Metodologia e Publicação da Pesquisa
Os detalhes do estudo, que acompanhou 378 procedimentos cirúrgicos realizados em 288 pacientes no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) entre os anos de 2011 e 2020, foram integralmente publicados na prestigiada revista The Lancet Regional Health – Americas, um importante reconhecimento da relevância da investigação sobre a doença de Chagas.
A equipe de pesquisadores também apontou limitações inerentes ao estudo. Restrições orçamentárias impediram a realização de exames como o mapeamento eletroanatômico em todos os pacientes, e a estrutura hospitalar não permitiu um acompanhamento estatisticamente fidedigno para associações mais modestas, dificultando a identificação de situações muito específicas. Além disso, a rotina medicamentosa dos pacientes não foi monitorada ao longo dos aproximadamente oito anos de pesquisa para cada participante, e os protocolos de acompanhamento pós-cirúrgico variaram por fatores que transcendiam a esfera clínica.
“A retenção no período pós-alta foi alta em todos os grupos; no entanto, a duração do acompanhamento variou, o que reduz a precisão em momentos posteriores e pode subestimar a detecção de eventos tardios, principalmente entre pacientes de regiões remotas que enfrentam barreiras socioeconômicas e logísticas para o cuidado a longo prazo”, pondera o estudo.
O Impacto Global da Doença de Chagas
A doença de Chagas continua a ser um desafio de saúde pública global. Estimativas atuais indicam que cerca de 7 milhões de pessoas ao redor do mundo vivem com a infecção, enquanto outras 100 milhões residem em regiões de risco. Anualmente, surgem entre 30 mil e 40 mil novos casos. Preocupantemente, menos de 10% dos indivíduos infectados recebem um diagnóstico, geralmente aqueles que manifestam as formas mais agressivas da enfermidade. Presente em 21 países da América Latina, a doença de Chagas também registra casos pontuais na América do Norte, Europa, Japão e Austrália, reforçando a urgência em aprimorar o diagnóstico e o tratamento.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/risco-cardiaco-dobra-para-pacientes-com-doenca-de-chagas-apos-cirurgia
