Diabéticos no Brasil: Câmara aprova PL para SUS fornecer monitor contínuo
© Marcello Casal jr/Agência Brasil
A complexa rotina de milhões de brasileiros que convivem com o diabetes vai muito além do controle glicêmico, revelando um impacto profundo e silencioso no bem-estar emocional. Uma pesquisa global recente aponta que sete em cada dez pacientes no país sentem a doença afetar significativamente sua saúde mental, enquanto uma demanda crescente por tecnologias preditivas de monitoramento de glicose esbarra na atual política de saúde pública nacional.
O estudo, realizado pelo Global Wellness Institute (GWI) em parceria com a Roche Diagnóstica, lançou luz sobre as percepções e os desafios diários enfrentados por pessoas com diabetes. Os dados são alarmantes: 78% dos entrevistados relatam ansiedade ou preocupação constante com o futuro de sua condição, e dois em cada cinco expressam sentimentos de solidão ou isolamento em decorrência do diagnóstico e tratamento. A vulnerabilidade emocional é ainda mais acentuada entre os pacientes com diabetes tipo 1, onde 77% afirmam ter seu bem-estar emocional consideravelmente afetado.
A pesquisa abrangeu 4.326 pessoas com idade igual ou superior a 16 anos, em 22 países, com 20% dos participantes residindo no Brasil. O levantamento foi conduzido em setembro de 2025.
### O Peso Emocional e os Desafios Diários do Diabetes
Além da carga emocional, a pesquisa detalha as limitações impostas pela doença no cotidiano dos brasileiros. Para 56% dos entrevistados, o diabetes restringe a capacidade de passar o dia fora de casa, enquanto 46% enfrentam dificuldades em situações comuns, como o trânsito intenso ou reuniões prolongadas. A qualidade do sono também é comprometida, com 55% dos pacientes declarando não acordar plenamente descansados devido às variações glicêmicas que ocorrem durante a noite.
O Brasil ocupa a 6ª posição mundial em número de casos de diabetes, com 16,6 milhões de adultos diagnosticados, conforme o Atlas Global do Diabetes 2025 da International Diabetes Federation (IDF). A doença, caracterizada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, pode levar ao aumento da glicemia e a graves complicações em órgãos vitais como coração, olhos, rins e nervos. O Diabetes Melito tipo 1 (DM1), uma doença crônica não transmissível e hereditária, é resultado da destruição das células pancreáticas produtoras de insulina.
### Tecnologia e Previsibilidade: A Busca por Maior Controle do Diabetes
Em meio a esses desafios, a insatisfação com o modelo de cuidado atual é evidente: a maioria dos pacientes não se sente plenamente atendida, e apenas 35% demonstram grande confiança no gerenciamento da própria condição. Esse cenário reforça a necessidade de maior controle e previsibilidade sobre o diabetes.
Nesse contexto, a tecnologia emerge como uma esperança. Cerca de 44% dos consultados defendem que tecnologias mais inteligentes, capazes de prever mudanças nos níveis de glicose, deveriam ser priorizadas para prevenir complicações. Entre os que utilizam medidores tradicionais, 46% consideram que os sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) deveriam ser amplamente adotados, dada sua capacidade de atuar como alertas preditivos.
A funcionalidade mais desejada em sensores com inteligência artificial (IA) é a capacidade de prever futuros níveis de glicose, apontada por 53% dos entrevistados – número que salta para 68% entre os pacientes com diabetes tipo 1. Ter conhecimento antecipado das tendências glicêmicas daria a 56% dos brasileiros consultados a sensação de estar no controle da doença, enquanto 48% acreditam que a redução de picos e quedas inesperadas de glicose aumentaria significativamente sua qualidade de vida. Ferramentas capazes de prever hipoglicemia e hiperglicemia são consideradas fundamentais por 95% dos pacientes com diabetes tipo 1.
### Sensores e Inteligência Artificial: Um Diferencial no Manejo do Diabetes
André Vianna, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), reitera a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento médico contínuo para evitar complicações. Para o endocrinologista, o avanço tecnológico representa um divisor de águas, especialmente para pacientes com diabetes tipo 1, cuja glicemia apresenta grande oscilação:
“O ideal para esses pacientes é ter um monitoramento contínuo da glicose por meio de sensores que já estão amplamente disponíveis em grande parte do mundo. Esse sensor permite à pessoa entender precocemente o que vai acontecer nas próximas horas antes desse diagnóstico acontecer. A pessoa vai saber se a glicose dela daqui a meia hora vai estar alta ou baixa e pode tomar uma atitude preventiva”, explicou o médico.
Vianna ressalta que a adoção de tais sensores não só melhora a saúde individual, mas também resulta em menor sobrecarga e gastos para o sistema público de saúde:
“Essas pessoas vão acabar indo menos para o hospital, vão se internar menos, vão menos para o pronto-socorro. Isso, inclusive, além de melhorar a saúde, diminui o custo do tratamento. Por isso, o monitor contínuo já é algo bastante estabelecido no mundo.”
O vice-presidente da SBD enfatiza que o uso de sensores e de tecnologias como a inteligência artificial (IA) pode aliviar o estresse diário e constante que a incerteza da glicose impõe aos indivíduos:
“Vem diminuir essa carga do diabetes, esse estresse diário e constante das pessoas que convivem com diabetes e com a incerteza do que vai acontecer com a sua glicose daqui a algum tempo, atrapalhando muitas vezes as funções diárias do indivíduo – o sono, o trabalho, atrapalhando, por vezes, momentos de descontração”.
Ele esclarece que os benefícios são notáveis tanto para o diabetes tipo 1 quanto para o tipo 2:
“Os benefícios no diabetes tipo 1 são vistos mais de imediato, no curto prazo, às vezes no mesmo dia. E no diabetes tipo 2, são vistos a longo prazo, com menos internações e menos complicações”.
### Monitoramento Contínuo de Glicose no SUS: Entre a Necessidade e a Realidade Atual
Apesar do reconhecimento dos benefícios, a realidade do acesso a esses dispositivos no Brasil ainda é desigual. Enquanto quatro empresas comercializam os aparelhos no país, sua difusão se restringe majoritariamente a pessoas de maior poder aquisitivo. Em contraste, nações desenvolvidas, como França e Reino Unido, disponibilizam esses sistemas gratuitamente por meio de seus sistemas de saúde, e nos Estados Unidos, operadoras de saúde privadas os oferecem amplamente.
No Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, a disponibilização em larga escala desses sensores ainda não se concretizou. Em janeiro de 2025, o Ministério da Saúde tornou pública a decisão de não incorporar o monitoramento contínuo da glicose por escaneamento intermitente para pacientes com diabetes mellitus tipos 1 e 2. Essa determinação foi formalizada pela Portaria número 2, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico Industrial da Saúde, do ministério.
### O Caminho da Legislação e o Cenário Futuro do Tratamento do Diabetes
Em paralelo à postura do Ministério da Saúde, o Poder Legislativo demonstrou interesse em alterar esse cenário. Em dezembro do ano passado (2024), a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 323/25. A proposta visa obrigar o SUS a fornecer gratuitamente dispositivos para monitorar a glicose de pacientes com diabetes mellitus por dispositivo de escaneamento intermitente.
Para que o Projeto de Lei se torne lei, ele precisa ainda ser analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de seguir para aprovação na Câmara e no Senado. Procurado para comentar o tema, o Ministério da Saúde não se pronunciou.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/brasileiros-com-diabetes-defendem-uso-de-tecnologias-tratamento
