Rio sedia 1º Congresso Global de Bancos de Leite Humano da Fiocruz
© BLH IFF/Fiocruz/Divulgação
O Rio de Janeiro se torna, de segunda (18) a quarta-feira (21), o epicentro das discussões sobre bancos de leite humano, sediando o I Congresso da Rede Global de Bancos de Leite Humano. O evento, promovido pela Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH-BR) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), marca os 15 anos do Dia Mundial de Doação de Leite Humano e reúne especialistas para debater os avanços e desafios cruciais na promoção da doação de leite materno, um pilar fundamental para a saúde de recém-nascidos prematuros e de baixo peso.
O Papel Estratégico da Doação de Leite Humano
Sob o tema “15 Anos Promovendo Equidade e Resiliência”, o congresso propõe uma profunda reflexão sobre a mobilização global em torno da doação de leite humano. No Brasil, o modelo de atuação é reconhecido mundialmente, com a Fiocruz liderando há 40 anos o desenvolvimento de soluções inovadoras que resultaram na maior e mais complexa Rede de Bancos de Leite Humano do planeta, que atualmente conta com mais de 230 unidades. Esse trabalho é endossado por uma parceria estratégica com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), com a Fiocruz abrigando o único Centro Colaborador da Opas/OMS para Bancos de Leite Humano em escala global (BRA-87).
A data de 19 de maio foi oficialmente escolhida como Dia Mundial de Doação de Leite Humano em 2010, durante um congresso no Brasil, impulsionando a celebração e o debate em diversos países. A primeira comemoração do Dia Nacional de Doação de Leite Humano já havia ocorrido no Brasil em 2004.
Desafio Constante: A Sensibilização de Doadoras
Apesar da rede robusta, o grande desafio reside na sensibilização de mulheres lactantes para que doem o excesso de leite, em vez de descartá-lo. Danielle Aparecida da Silva, coordenadora da rBLH e do Banco de Leite Humano (BLH) do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), enfatiza a necessidade de ampliar a conscientização.
“É muito comum ver uma mulher que está produzindo muito leite jogar fora o excedente que seu bebê não consome. A gente precisa sensibilizar muito mais a sociedade para que ela se direcione aos bancos de leite. Temos que levar esse conhecimento a ela, para que não jogue fora, mas doe aos bancos de leite humano”, disse Danielle à Agência Brasil.
Os bancos de leite humano são serviços essenciais de saúde que não apenas apoiam a amamentação, mas também coletam o leite excedente. Esse recurso passa por rigoroso processamento e controle de qualidade antes de ser destinado a recém-nascidos prematuros e de baixo peso, para os quais é um verdadeiro “recurso terapêutico”.
Flutuações nas Doações e o Impacto no Atendimento
A demanda por leite humano ainda não é totalmente suprida. “Só que a gente ainda não alcança o volume suficiente para atender 100% desses bebês. Porque, muitas vezes, essa doação é flutuante ao longo do ano. Após o mês de maio, quando a gente consegue sensibilizar mais a sociedade, a doação cai muito”, explica Danielle.
As férias e as festas de fim de ano são períodos críticos para a baixa de doações. No Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira, por exemplo, alguns meses registram entre 100 e 150 doadoras, que somam uma média de 100 a 150 litros por mês. A proximidade do inverno agrava a situação, com o aumento de internações de bebês por doenças respiratórias e, consequentemente, um maior número de receptores, sem um volume de leite doado que acompanhe essa demanda crescente.
A coordenadora destaca que o leite doado transcende a nutrição, atuando na imunidade e no desenvolvimento infantil, contribuindo para uma alta hospitalar mais precoce dos bebês.
Panorama Nacional e Desigualdades Regionais
Embora o Brasil tenha registrado um aumento de 8% nas doações, Danielle considera o crescimento “ineficiente”, com a necessidade de uma ampliação ainda maior.
O Distrito Federal se destaca como um exemplo, tendo alcançado a autossuficiência na doação de leite humano, conseguindo atender 100% de seus bebês necessitados. Rio Grande do Sul e Santa Catarina também caminham para a sustentabilidade. Em contrapartida, as regiões Norte e Nordeste enfrentam maiores desafios, com a maioria dos estados possuindo apenas um banco de leite, exceção feita ao Amazonas e Pará.
No estado do Rio de Janeiro, uma rede de 17 bancos de leite humano, distribuídos na capital, região metropolitana e cidades como Petrópolis, Nova Friburgo, Campos e Volta Redonda, opera para suprir a demanda. Contudo, Danielle observa que as doações no estado permaneceram estáveis e, em alguns meses, até diminuíram.
Inovação na Rede de Bancos de Leite Humano: A Experiência da Pandemia
A pandemia de covid-19, com o distanciamento geográfico, impulsionou a Rede de Bancos de Leite Humano a inovar. “A rede se reinventou e, em vez de o Ministério da Saúde trazer o slogan para celebrar o dia mundial, a própria rede lançou um primeiro edital para escolha do slogan, aberto a toda a sociedade, não apenas aos profissionais de saúde, mas a toda a sociedade”, explicou Danielle.
Esse edital global, lançado em inglês, francês e espanhol, recebeu propostas dos cinco continentes, “da Argentina até a Índia”, como ressaltou a coordenadora. A votação popular elegeu o slogan vencedor no primeiro ano da pandemia: “A pandemia trouxe mudanças; a sua doação traz esperança”. O sucesso da iniciativa fez com que o processo de escolha dos slogans anuais seguisse esse modelo até hoje. Em 2016, por exemplo, o lema vencedor veio do Equador: “A solidariedade nutre e a vida cresce”.
A Pauta do Congresso Global
A programação do I Congresso da Rede Global de Bancos de Leite Humano abordará temas de grande relevância, como os impactos da pandemia de covid-19, as emergências sanitárias decorrentes das mudanças climáticas, os desafios impostos por crises humanitárias e os caminhos para fortalecer respostas globais alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com foco especial no ODS 3 (Saúde e Bem-estar).
O evento é um importante espaço para articulação, cooperação internacional e produção de conhecimento, reunindo especialistas, gestores públicos, representantes de organismos internacionais, pesquisadores e membros da sociedade civil de diversas nações. O congresso acontece no Hotel Windsor Guanabara, no centro do Rio, em formato híbrido (Zoom e transmissão pelo canal da rBLH no YouTube), com início às 8h. A programação completa está disponível na página da rBLH.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/desafio-dos-bancos-de-leite-e-conscientizar-lactantes-a-doar-excedente

