GBB utiliza DNA Ambiental para identificar fauna marinha no sul da Bahia.
© Robert Sforza/Divulgação
A vanguarda da biotecnologia marinha está sendo desvendada nas águas do sul da Bahia. Pesquisadores do Instituto Tecnológico da Vale (ITV), em colaboração com o Centro Tamar/ICMBio, implementaram uma nova fase do projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), focada na identificação de espécies da fauna marinha por meio de uma técnica revolucionária: o DNA Ambiental metabarcoding. A abordagem, que promete otimizar o monitoramento da biodiversidade em Reservas Extrativistas (RESEXs), utiliza amostras de água para mapear a vida submarina de Corumbau e Cassurubá, com o objetivo de proteger ecossistemas e espécies ameaçadas.
A Tecnologia por Trás do Monitoramento Marinho
Avançando os métodos tradicionais de pesquisa biológica, a nova etapa do GBB adota o DNA Ambiental metabarcoding, uma metodologia de ponta que permite a detecção simultânea de múltiplas espécies. Ao invés da captura direta dos organismos, a técnica explora o material genético (DNA) que os animais liberam constantemente no ambiente — seja através de pelos, escamas, urina ou fezes. Esse “DNA invisível” é coletado em amostras ambientais, como água, solo ou ar, e posteriormente sequenciado.
Amely Branquinho Martins, coordenadora do GBB pelo ICMBio, detalha o processo: “Todo animal que passa por um ambiente deixa pedacinhos de pelo, de escama, de fezes ou de urina que contém o seu DNA. Vários animais passando por aquele ambiente vão deixando rastros de sua passagem e, dentro desse rastro, temos as moléculas de DNA. Quando a gente pega essa amostra, sequenciamos todo o DNA [dessa amostra] e o comparamos com os bancos de dados de referência. E, a partir daí, conseguimos identificar as espécies.”
A eficiência do DNA Ambiental reside na sua natureza não invasiva e na capacidade de registrar espécies raras ou de difícil observação. Roberto Sforza, analista ambiental do ICMBio, ressalta que “Por não necessitar isolar e capturar os organismos, essa abordagem é considerada uma alternativa não invasiva para estudos de biodiversidade. O eDNA metabarcoding também tem se mostrado complementar aos métodos tradicionais de identificação de espécies, em alguns casos superando limitações destes e permitindo o registro de espécies raras ou de hábitos elusivos, requerendo menos esforço e tempo para a obtenção das amostras.” A aplicação dessa inovação busca comparar sua eficácia com as metodologias convencionais de monitoramento em unidades de conservação federais.
Coleta de DNA Ambiental no Litoral Baiano
Em um projeto-piloto estratégico, a ação concentrou-se no litoral sul da Bahia, especificamente nas Reservas Extrativistas (RESEXs) de Corumbau e Cassurubá. Pesquisadores realizaram a coleta de amostras de água do mar em vinte pontos da RESEX de Corumbau. Adicionalmente, dez locais foram selecionados nas porções estuarina e marinha da RESEX de Cassurubá, evidenciando a abrangência da iniciativa para o monitoramento da fauna marinha.
A escolha minuciosa dos pontos de amostragem foi crucial para a pesquisa. Roberto Sforza esclareceu que “A definição destes pontos pelas equipes envolvidas considerou as espécies de interesse e os locais de realização das atividades de pesca e extrativismo pelos beneficiários das RESEXs, as áreas relevantes para conservação das espécies ameaçadas, e a possível ocorrência de espécies exóticas invasoras.” As coletas, realizadas no mês de março, foram submetidas a processos de filtragem e conservação antes de serem enviadas ao laboratório do ITV em Belém, Pará, onde o material genético será extraído, analisado e sequenciado para desvendar a composição da vida aquática local.
O Que Busca o Mapeamento Genético Marinho
A iniciativa do Genômica da Biodiversidade Brasileira vai além da simples identificação de espécies. Um dos principais objetivos é a detecção precoce de animais ameaçados de extinção, bem como a identificação e o acompanhamento de espécies exóticas invasoras que possam comprometer a saúde dos ecossistemas protegidos. Este mapeamento genético visa compreender a dinâmica da biodiversidade marinha regional de forma abrangente.
Entre os alvos específicos do estudo, destacam-se peixes e invertebrados de grande valor socioeconômico para as comunidades locais beneficiárias das RESEXs, com foco especial em espécies sob ameaça, como os budiões. Segundo Sforza, o monitoramento inclui também “animais que são os principais alvos de pescaria como peixes recifais, camarões, moluscos e caranguejo-uçá, como também espécies exóticas invasoras, como o peixe-leão e o coral sol.” A capacidade do DNA Ambiental de “encurtar um pouco o caminho para a detecção dessas espécies”, conforme apontado por Alexandre Aleixo, coordenador do GBB pelo ITV, é fundamental para identificar mesmo aqueles organismos de difícil visualização, seja por hábitos noturnos ou por sua raridade.
Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB): Um Panorama Nacional
Lançado em 2023, o Projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB) representa a mais ambiciosa empreitada de sequenciamento genômico da biodiversidade já empreendida no país. Seu propósito central é gerar um vasto banco de dados genéticos e genômicos de espécies variadas — desde aquelas ameaçadas de extinção até as de interesse econômico, passando por exóticas e endêmicas —, visando o desenvolvimento de aplicações que apoiem tanto a conservação quanto o uso sustentável dos recursos naturais brasileiros. Esta abrangente iniciativa de genômica da biodiversidade busca fornecer ferramentas essenciais para a bioeconomia e a preservação ambiental.
Alexandre Aleixo, pesquisador e coordenador do GBB pelo Instituto Tecnológico Vale (ITV), explica a amplitude dos benefícios: “Ao conhecer todo o mapa genético de uma espécie, conseguimos, a partir dali, desenvolver aplicações seja para a conservação seja para [o desenvolvimento] de novos produtos.” O GBB opera em dois eixos principais: a genômica voltada para a conservação de espécies e o desenvolvimento de “códigos de barras” genéticos, que inclui o uso do DNA Ambiental metabarcoding.
A coordenadora Amely Branquinho Martins informa que “Até o momento, mais de 40 genomas de referência foram gerados e esperamos que, até o final do projeto, tenhamos pelo menos 80 espécies da biodiversidade brasileira, com foco principal em espécies ameaçadas.” Aleixo complementa, destacando alguns dos genomas de referência já mapeados: “Dentro dos genomas mais informativos, que são os de referência, a gente já gerou [o mapeamento] da onça, da arara-azul, da anta, da ararajuba, do queixada e do próprio açaí.” Além disso, 613 espécies tiveram seus códigos de barras sequenciados, e 479 amostras ambientais foram processadas por DNA Ambiental, cada uma com potencial para revelar a diversidade de múltiplos animais. O foco primordial é subsidiar os processos institucionais do ICMBio para a conservação e testar a aplicação do DNA Ambiental no Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora).
Genomas como Cápsulas do Tempo: Respostas às Mudanças Climáticas
O vasto conhecimento gerado pelo sequenciamento genômico do GBB não se restringe à identificação e conservação atuais. Ele se projeta como uma ferramenta crucial para compreender o passado e planejar o futuro, especialmente no contexto das mudanças climáticas. Alexandre Aleixo descreve o genoma como uma “cápsula do tempo”, capaz de revelar a história evolutiva das espécies. “O genoma é uma cápsula do tempo. Então, a partir do genoma eu consigo saber de onde um determinado indivíduo veio e se ele veio de uma população que era geneticamente diversificada ou não”, explica.
Essa informação histórica permite aos pesquisadores decifrar como as espécies enfrentaram eventos climáticos passados, como a Era do Gelo, que impactou o Brasil de maneiras distintas há 20 mil anos. A análise genômica pode, assim, fornecer insights valiosos sobre mecanismos de adaptação. “Queremos entender, via genoma, sobre o que aconteceu, quais populações sofreram, quais populações se adaptaram e por que se adaptaram. Será que essa adaptação que aconteceu no passado poderia ser usada para adaptar para as mudanças climáticas futuras? Nosso único guia é a cápsula do tempo do genoma”, afirma Aleixo.
A pesquisa no exterior já demonstra o potencial dessa abordagem. Na Europa, a iniciativa de “resgate evolutivo” em plantas utiliza o genoma para identificar características adaptativas, como resistência à seca, possibilitando cruzamentos direcionados para fortalecer espécies.
Expansão Futura e Acesso aos Dados da Genômica
Após o desenvolvimento inicial no bioma amazônico e a atual fase focada nos ecossistemas marinho-costeiros do sul da Bahia, o Projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB) planeja expandir sua atuação para os demais biomas do país. Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal são os próximos horizontes para a aplicação dessa tecnologia de ponta na conservação da biodiversidade. A ideia é consolidar uma rede nacional de dados genômicos.
Todos os resultados e informações geradas por esta monumental iniciativa são disponibilizados publicamente através da plataforma GenRefBR, oferecendo um recurso valioso para a comunidade científica, formuladores de políticas e o público em geral interessado na vasta e complexa biodiversidade brasileira.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-05/projeto-mapeia-fauna-marinha-da-bahia-por-meio-do-dna-ambiental
