Unesco: Ensino superior global dobra matrículas de 2000 para 2024
© Marcello Casal JrAgência Brasil
A expansão do ensino superior global alcançou um marco significativo nas últimas duas décadas, com o número de estudantes em universidades e faculdades mais que dobrando. De acordo com um relatório inédito da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado nesta terça-feira (12) em Paris, o total de matrículas disparou de 100 milhões em 2000 para impressionantes 269 milhões em 2024. Este crescimento coloca 43% da população mundial entre 18 e 24 anos em alguma modalidade de educação superior, evidenciando uma demanda crescente por qualificação acadêmica, mas também revelando profundas desigualdades regionais que persistem no acesso à formação.
Desafios Geográficos no Acesso ao Ensino Superior
Apesar do salto nas matrículas, o panorama global do ensino superior apresenta um contraste acentuado entre diferentes regiões do planeta. O estudo da Unesco, que compilou dados de 146 países, aponta que, enquanto na Europa Ocidental e América do Norte aproximadamente 80% dos jovens estão matriculados em instituições de ensino superior, essa proporção cai drasticamente em outras partes do mundo. Na América Latina e no Caribe, o índice é de 59%, enquanto nos Estados Árabes chega a 37%. A situação é ainda mais crítica no Sul e Oeste da Ásia, com 30%, e na África Subsaariana, onde apenas 9% dos jovens têm acesso à educação superior.
As instituições privadas desempenham um papel relevante nesse cenário, respondendo por um terço das matrículas em todo o mundo. A América Latina e o Caribe lideram essa tendência, com 49% dos estudantes optando pelo setor privado em 2023. Em nações como Brasil, Chile, Coreia do Sul e Japão, quatro em cada cinco estudantes frequentam uma instituição privada de ensino superior. Paralelamente, o relatório da Unesco destaca que apenas um terço dos países estabeleceu legalmente a gratuidade do ensino superior público. Contudo, o ritmo de conclusão dos estudos não acompanhou a mesma velocidade da expansão das matrículas, com a taxa bruta global de graduação passando de 22% em 2013 para 27% em 2024.
A Demanda Crescente e a Voz da Unesco
O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, sublinhou a importância do documento recém-lançado, ressaltando a ascensão da procura por ensino superior no planeta. “que desempenha um papel insubstituível na construção de sociedades sustentáveis”, afirmou El-Enany. Ele, no entanto, alertou que essa expansão nem sempre se traduz em oportunidades justas e equitativas. Por isso, a necessidade urgente de modelos inovadores de financiamento se faz evidente para assegurar uma educação superior inclusiva e de alta qualidade.
O diretor-geral reforçou o compromisso da organização: “por meio de iniciativas importantes, como a Convenção Global sobre a Educação Superior e o Passaporte de Qualificações, a Unesco vai continuar apoiando os países na oferta de oportunidades de ensino superior de alta qualidade para todas as pessoas.”
Mobilidade Internacional de Estudantes em Ascensão
A mobilidade internacional de estudantes também registrou um crescimento notável no período analisado. O número de alunos que buscam seus estudos no exterior triplicou, passando de 2,1 milhões em 2000 para quase 7,3 milhões em 2024. Metade desses estudantes escolhe instituições localizadas na Europa e América do Norte. Apesar da expressividade do crescimento, essa modalidade beneficia apenas 3% do total de estudantes globalmente, com disparidades importantes entre as regiões.
Um grupo de sete países — Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia — continua atraindo metade de todos os estudantes internacionais. No entanto, o cenário de destinos está se diversificando. Na última década, nações como Turquia e Emirados Árabes Unidos (EAU) registraram um crescimento de, no mínimo, cinco vezes no número de estudantes estrangeiros, aproximando-se da popularidade da França, conforme o relatório.
Ainda, o estudo aponta uma preferência crescente dos estudantes internacionais por destinos dentro de suas próprias regiões. Na América Latina e no Caribe, a mobilidade intrarregional aumentou de 24% para 43% entre 2000 e 2022, com a Argentina se consolidando como principal destino. Similarmente, estudantes dos Estados Árabes têm demonstrado uma maior concentração em países do Golfo e na Jordânia, sinalizando uma mudança em relação à predominância europeia e norte-americana de uma década atrás. A Unesco, por meio de sua Convenção Global sobre o Reconhecimento de Qualificações relativas ao Ensino Superior, já ratificada por 93 países, desempenha um papel crucial na promoção e regulamentação da mobilidade estudantil internacional, garantindo mecanismos justos e transparentes de reconhecimento de qualificações e padrões universais de qualidade.
Paridade de Gênero e Desafios Remanescentes
Uma das conquistas mais significativas reveladas pelo relatório é a superação da paridade de gênero no ensino superior em âmbito global. Em 2024, havia 114 mulheres matriculadas para cada 100 homens. Essa paridade foi atingida em todas as regiões, com a exceção da África Subsaariana, onde ainda persistem as menores taxas de matrícula e de conclusão da formação.
Houve um avanço notável na Ásia Central e no Sul da Ásia, regiões que, em 2000, registravam 68 mulheres para cada 100 homens matriculados e alcançaram a paridade de gênero em 2023. Apesar do progresso geral, as mulheres ainda se encontram sub-representadas em níveis de doutorado e ocupam apenas cerca de um quarto dos cargos de liderança sênior no meio acadêmico do ensino superior.
Acesso para Grupos Vulneráveis e Inovação
A equidade, a qualidade e o financiamento permanecem como desafios urgentes para os estudantes do ensino superior em todo o mundo, segundo a Unesco. Apenas um terço dos países implementou programas específicos para facilitar o acesso de grupos sub-representados à educação superior. Algumas nações, como África do Sul, Chile, Coreia do Sul, Filipinas, Itália, Japão, Maurício e México, já adotaram medidas para reduzir ou eliminar as taxas de ensino superior para grupos específicos.
Refugiados ainda enfrentam barreiras consideráveis para acessar o ensino superior, mesmo com um aumento expressivo de nove vezes na quantidade de matrículas, passando de 1% em 2019 para 9% em 2025. Uma das principais dificuldades é o reconhecimento de qualificações, muitas vezes ausentes ou impossíveis de serem verificadas, especialmente no Sul Global. Para mitigar esse problema, a Unesco implementou o Passaporte de Qualificações, uma ferramenta que visa reconhecer qualificações acadêmicas e profissionais de pessoas refugiadas e deslocadas à força. Atualmente, o Passaporte de Qualificações da Unesco está em operação no Iraque, Quênia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue, com planos de expansão, e já beneficiou centenas de candidatos.
Em termos de investimento, a média global de gastos governamentais no ensino superior corresponde a aproximadamente 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). A Unesco observa que a austeridade fiscal em diversos contextos tem intensificado a pressão sobre as instituições de educação superior, reforçando a urgência de modelos de financiamento inovadores que possam garantir um ensino superior inclusivo e de qualidade.
Outro ponto de destaque no relatório é a lenta adaptação das instituições às transformações tecnológicas. Apesar do impacto das tecnologias digitais e da inteligência artificial (IA) no ensino e na aprendizagem, apenas uma em cada cinco universidades possuía uma política formal sobre IA em 2025.
O relatório da Unesco conclui que a rápida expansão do número de estudantes nas últimas décadas criou tensões significativas nos sistemas de ensino superior. Essa realidade ressalta a necessidade imperativa de garantir padrões de qualidade no ensino, enquanto se amplia o acesso para grupos desfavorecidos, por meio de um financiamento que seja tanto equitativo quanto sustentável.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-05/unesco-matriculas-no-ensino-superior-mais-que-dobraram-no-mundo
