Escola de Itararé, SP, vira referência em educação com aulas e saberes na natureza
© Lopes/Instituto Motiva
Em um movimento crescente que redefine os limites da sala de aula tradicional, escolas públicas de todo o Brasil estão adotando a “educação na natureza” como pilar de seu desenvolvimento pedagógico. Um exemplo notável dessa transformação emerge de Itararé, no interior de São Paulo, onde a Escola Municipal do Campo Profª Andréa Ferraz de Oliveira se destacou ao converter quintais e áreas verdes em vibrantes “espaços de aprendizagem”, revitalizando a conexão dos estudantes com o meio ambiente e os saberes ancestrais.
O Desafio da Desconexão e o Impulso da Educação na Natureza
A iniciativa paulista ressoa com um debate nacional e internacional sobre a importância de reconectar as novas gerações com o mundo natural. Dayana Araújo, arquiteta e urbanista que coordena o programa pelo Instituto Alana, alerta para a “desconexão com a natureza” que se aprofundou nos últimos anos. “Os pedagogos e especialistas têm falado da importância do ‘desemparedamento’ das infâncias, porque as infâncias estão emparedadas nos seus quartos, nas suas casas, nas suas telas. Ao mesmo tempo, a Sociedade Brasileira de Pediatria tem anunciado o ‘Transtorno do Déficit de Natureza’. São muitas áreas do conhecimento nos convocando a pensar a importância de aprender na natureza”, enfatiza Araújo, destacando que essa abordagem promove o desenvolvimento integral de crianças e jovens, não apenas cognitivo, mas social e físico.
A Escola Profª Andréa Ferraz de Oliveira, reconhecida no ano passado com o Prêmio Escolas Baseadas na Natureza, é um farol nesse contexto. Seu projeto, intitulado Salas Abertas: Reconectar com a Natureza, foi concebido para expandir o processo educativo para além dos muros convencionais, diversificando os cenários para as aulas ao ar livre e promovendo uma profunda valorização das tradições locais, visando aprimorar a qualidade de vida na comunidade.
Saberes Ancestrais e a Comunidade no Coração do Projeto
Um dos pilares do sucesso em Itararé reside na história e no conhecimento de Eusa Rodrigues Pereira, uma figura central na comunidade que atuou como cozinheira da unidade escolar por mais de três décadas. Dona Eusa, com sua prática arraigada na conservação de “semente crioula”, tornou-se a ponte entre o passado e as novas gerações, solidificando o sentimento de pertencimento. “Dona Eusa sempre teve em sua vida a prática da semente crioula e compartilhou com a escola esse conhecimento ancestral”, narra a professora Dynná Ferraz, que integra a equipe da escola municipal. “A escola abraçou esse conhecimento, que é um dos importantes caminhos para mudar a forma de produzir alimentos, já que a segurança alimentar é um problema local e global que motiva esse projeto.”
Dentro da proposta das “Salas Abertas”, os espaços de aprendizagem foram enriquecidos com a criação do “Berçário das Plantas”. Este complexo, que inclui uma horta, um pomar e uma casa de sementes, foi construído com técnicas da região, inspiradas na comunidade quilombola local. “Temos a parceria com os moradores da Comunidade Quilombola Fazenda Silvério, cujo líder da comunidade carinhosamente chamamos de Tio Darci, que construíram uma casa barreada com a participação de estudantes. Essa casa se tornou a Casa de Sementes Eusa Rodrigues Pereira”, detalha a professora. Mesmo após a aposentadoria, Dona Eusa mantém seu vínculo, participando ativamente dos eventos escolares.
Laboratórios Vivos e Espaços de Regulação Emocional
No “Berçário das Plantas”, as crianças têm um ambiente imersivo para explorar e pesquisar. “Tem um pomar atrás da casinha barreada, que é a casinha de sementes, e ali fica o fogãozinho a lenha. As crianças brincam com as sementes na cozinha brincante, que fica debaixo do pomar, com o barro e com as plantas. Pertinho tem a horta, onde eles podem plantar e colher, e a gente trabalha com a questão da alimentação saudável”, explica Dynná Ferraz sobre a dinâmica pedagógica.
Além do contato direto com o cultivo, a escola inovou com o “Canto da Calma”, um espaço dedicado ao jardim e à leitura, que atua como ferramenta para a regulação emocional das crianças e incentivo à leitura em um ambiente natural. “A gente fez uma biblioteca ligada a um redário e virou um cantinho da calma. As crianças pegam um livro, descem por um escorregador de madeira e vão para o redário. A área já era gramada e ficava livre, mas antes não tinha muito aproveitamento”, conta a professora, sobre a otimização de uma área subutilizada. A escola também possui um laboratório para experimentos práticos, onde os alunos investigam conceitos como a cobertura morta e a aplicação de húmus, e produzem defensivos orgânicos, tornando a “aprendizagem ao ar livre” ainda mais rica.
Prêmio Escolas Baseadas na Natureza Impulsiona Transformação Curricular
A conquista do Prêmio Escolas Baseadas na Natureza foi um divisor de águas para a instituição, permitindo aprimoramentos significativos nas áreas externas. “Nossa escola já era enriquecida de espaços naturalizados, mas o prêmio junto com as mentorias, os encontros, as visitas dos especialistas, tornou possível reorganizar os espaços como salas de aula abertas”, pontua a educadora. Ela ressalta que “essas melhorias já foram realizadas e a equipe escolar vê nesse projeto o impulso que precisávamos para melhorar ainda mais nossas práticas, permitindo que aconteçam intervenções mais concretas no nosso currículo, com impacto direto na comunidade, abrindo a possibilidade de ampliar debates para além da nossa comunidade escolar.”
Nova Edição do Prêmio: Oportunidade para Outras Escolas
Diante do sucesso de iniciativas como a de Itararé, o Prêmio Escolas Baseadas na Natureza lançou sua nova edição, oferecendo um convite para que outras escolas públicas municipais de todo o país ingressem nessa jornada de “educação ambiental” e “aprendizagem inovadora”. As inscrições para projetos nessa temática estão abertas até 29 de junho. Serão contempladas cinco escolas, cada uma recebendo R$ 100 mil para o desenvolvimento de suas propostas, além de acompanhamento técnico nas áreas de arquitetura e educação. As instituições interessadas podem se inscrever diretamente pelo site do programa.
O prêmio é uma iniciativa do Instituto Motiva, com o respaldo técnico e pedagógico do Instituto Alana e do Instituto Crescer, integrando o Programa Escolas Baseadas na Natureza. Ele se destina a escolas localizadas em 255 municípios distribuídos por 13 estados onde o Instituto Motiva já possui atuação. Renata Ruggiero, presidente do Instituto Motiva, sublinha que o prêmio visa estimular escolas públicas a intensificar “práticas pedagógicas” alinhadas aos desafios ambientais contemporâneos. “Quando os espaços escolares incorporam elementos naturais e passam a ser utilizados como ambientes de aprendizagem, os alunos desenvolvem novas formas de observar, investigar e compreender o mundo ao seu redor. O prêmio demonstrou o enorme potencial que existe nas escolas públicas brasileiras para desenvolver iniciativas criativas e transformadoras”, conclui Renata, reiterando o valor da “educação na natureza” para o desenvolvimento integral dos estudantes e comunidades.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-06/natureza-e-saberes-tradicionais-guiam-projeto-premiado-em-escola-rural

