Unicef: 16 milhões de crianças no Brasil expostas a múltiplos riscos climáticos
© Fernando Frazão/Agência Brasil
Uma nova e alarmante análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que aproximadamente 1,1 bilhão de crianças e adolescentes globalmente, o que representa quase metade da população jovem mundial, encontram-se expostos a um mínimo de três riscos climáticos simultâneos, ameaçando diretamente sua saúde, educação e até mesmo sua sobrevivência. A grave constatação faz parte do Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, lançado nesta segunda-feira (15), que detalha a vulnerabilidade da infância frente à escalada da crise ambiental.
O estudo aprofunda a compreensão de que, na prática, praticamente toda criança no planeta enfrenta pelo menos uma das ameaças climáticas mapeadas. Contudo, o cenário se agrava dramaticamente para mais de 4 milhões de crianças, que se veem sob o jugo de até seis diferentes perigos, destacando a complexidade e a sobrecarga de adversidades impostas pela emergência climática.
A Exposição da Infância Brasileira a Ameaças Climáticas
No Brasil, os dados são igualmente preocupantes. O relatório aponta que “16 milhões estão expostos a três ou mais riscos climáticos, como ondas de calor ou secas – o equivalente a 3 a cada 10 meninos e meninas brasileiras. Olhando para dois ou mais riscos, são mais de 30 milhões de crianças e adolescentes (6 a cada 10) que convivem cotidianamente com essas ameaças”, conforme alerta o documento.
A pesquisa do Unicef empregou os dados mais atualizados disponíveis para traçar um mapa detalhado da exposição de crianças e adolescentes a oito das ameaças climáticas mais recorrentes globalmente: inundações costeiras e de rios, secas severas, calor extremo, queimadas florestais, ondas de calor prolongadas, tempestades de areia e poeira, e tempestades tropicais. O documento inova ao demonstrar, pela primeira vez, a localização exata e a intensidade com que múltiplas ameaças climáticas afetam não apenas as crianças, mas também os serviços públicos essenciais dos quais elas dependem, além de propor caminhos para ações governamentais concretas.
Impactos Intensificados e Combinações de Riscos
Catherine Russell, diretora executiva do Unicef, sublinha que “a vida das crianças segue sendo profundamente abalada por ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes”. A combinação mais frequente de riscos climáticos para crianças é a tríade de seca, calor extremo e ondas de calor, impactando mais de 296 milhões de crianças e adolescentes que residem em áreas sujeitas a essas três condições. A segunda combinação mais comum, composta por seca, calor extremo e tempestades tropicais, afeta globalmente mais de 115 milhões de crianças.
Geograficamente, a região do Sahel, na África, é uma das mais castigadas, com mais de 4 milhões de crianças confrontando a tripla ameaça de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira. Em contraste, países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão registram a maior intensidade e número de ameaças climáticas à infância. Nem mesmo nações de alta renda estão imunes: na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a ondas de calor prolongadas e a secas.
Poluição e Doenças Amplificam o Desafio Climático
Além dos oito riscos primários, o estudo do Unicef estende sua análise para a exposição infantil à poluição do ar e à malária, ambas altamente sensíveis às alterações climáticas. Quase a totalidade das crianças em âmbito global é afetada pela poluição atmosférica, enquanto um bilhão de meninos e meninas estão suscetíveis à malária, adicionando uma camada de risco às populações já confrontadas por múltiplas ameaças climáticas.
No contexto brasileiro, a situação é espelhada: quase a totalidade das crianças e adolescentes (95%, ou 47 milhões) está exposta à poluição do ar. Adicionalmente, 5,6 milhões de jovens brasileiros (equivalente a 11% da população infantil do país) enfrentam a exposição à malária.
Apelo Global por Ações Urgentes
O relatório emite um alerta sombrio: “Sem esforços urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, as ameaças climáticas vão se tornar mais frequentes e mais intensas, pressionando ainda mais os orçamentos públicos, os sistemas governamentais e comprometendo o bem-estar das crianças”.
Para salvaguardar os direitos das crianças e combater a escalada da crise climática, o Unicef preconiza uma série de estratégias. É fundamental reduzir as emissões e adotar ações ambiciosas para cumprir compromissos internacionais, incluindo a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e uma transição equitativa para fontes de energia renováveis. A proteção de crianças e adolescentes deve ser garantida por meio de uma adaptação climática inclusiva, de ações de redução de riscos de desastres e de respostas a perdas e danos que confiram resiliência aos serviços públicos essenciais. É crucial assegurar que políticas voltadas para a infância sejam integradas aos planos nacionais de adaptação, estratégias setoriais, governança de risco de desastres e planos de preparação e resposta.
Ademais, o Unicef ressalta a importância de criar escolas seguras e ecologicamente conscientes, bem como unidades de saúde resilientes ao clima, além de garantir a segurança alimentar das crianças. Aprimorar a eficácia dos sistemas de alerta precoce para a infância e torná-los acessíveis aos serviços de apoio é outra prioridade, assim como fortalecer a eficiência dos serviços de água e saneamento e dos sistemas de proteção social responsivos a emergências. Por fim, empoderar crianças e jovens para uma participação significativa na ação climática, através de investimentos em educação e habilidades climáticas, e fortalecer a capacidade de tomadores de decisão e especialistas para respeitar os direitos das crianças de serem ouvidas, expressarem-se e participarem nas decisões que afetam suas vidas, são medidas indispensáveis.
“Esse estudo pode ajudar governos e tomadores de decisão a planejar melhor e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes”, conclui Catherine Russell, reforçando a urgência e a aplicabilidade das descobertas do Unicef para enfrentar os impactos climáticos na infância.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-06/quase-metade-das-criancas-do-mundo-esta-exposta-riscos-climaticos

