Silvio Meira volta a conselho do CESAR no Recife e debate impactos da IA

É preciso desaprender para conviver com a IA, explica Silvio Meira 

© CIn-UFPE/Divulgação

Silvio Meira, figura proeminente no cenário da tecnologia brasileira e um dos fundadores do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), retorna ao conselho da instituição com uma clara mensagem: a inteligência artificial (IA) representa o maior desafio da humanidade desde a invenção da prensa de Gutenberg. A declaração, feita durante as celebrações de 30 anos do CESAR, um dos berços do Porto Digital, ecoa a urgência de reavaliar o papel da tecnologia e das pessoas diante da ascensão vertiginosa da IA.

Raízes da Inovação e o Retorno Estratégico

O retorno de Meira ao Conselho de Administração do CESAR, três décadas após sua fundação, simboliza um alinhamento com os princípios que impulsionaram a criação do centro. Nascido em 1996 da visão de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE), o CESAR emergiu de um contexto de efervescência cultural – o movimento manguebeat, que misturava maracatu, reggae, hip hop e tecnologia – com o propósito de reter talentos e fomentar a inovação tecnológica no estado. Essa iniciativa pavimentou o caminho para o Porto Digital, hoje um reconhecido polo tecnológico que agrupa quase 500 empresas no Recife Antigo, reafirmando a vocação de Pernambuco para a vanguarda digital.

Para Meira, a relevância da IA justifica essa “volta às origens” do CESAR, onde a pauta central é o futuro da tecnologia. Ele afirmou: “Com a inteligência artificial, uma invenção que só encontra precedentes na criação dos tipos móveis, por Gutenberg, em 1450, o CESAR tem que voltar às origens”.

A Inteligência Artificial como Desafio Cognitivo e Repetitivo

O especialista em inteligência artificial detalha a natureza profunda do desafio imposto pela IA. Segundo ele, a tecnologia impacta diretamente a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos, que, em sua análise, possuem três tipos de inteligência: informacional, de socialização e autônoma. A IA, especificamente, “imita a inteligência” informacional, conforme explica Meira.

“A inteligência artificial mexe com a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos. A gente tem três inteligências: uma é inteligência informacional, a nossa capacidade de captar, processar, armazenar, recuperar, usar a informação para tomar a decisão em ação. A gente tem a capacidade de socialização, como a gente se articula com outras entidades para resolver problemas. E a gente tem a capacidade autônoma, o meu poder de decisão. Eu podia não ter decidido não vir para cá agora, mas decidi vir. O que IA faz? A IA “imita a inteligência” informacional dos humanos. Tudo que eu e vocês fazemos que é cognitivo, exige uma formação, mas é repetitivo, a IA pode fazer e faz melhor do que o humano numa escala estratosfericamente mais elevada e mais barata. Esse é o tamanho do problema”.

Exemplificando o alcance da tecnologia, Meira ilustra: “Vamos pegar um clínico geral padrão: você chega, ele nem olha pra você e pede 76 exames. Aí você faz os exames, volta, de novo, ele nem olha pra você e passa 22 remédios. Esse cara é uma IA dele mesmo. Se o que ele faz é pedir exames, analisar exames e casar exames com bula de remédios e passar remédios, ele pode ser automatizado.” Ele adiciona que as soluções de IA já são capazes de gerar “95% do código que os humanos escrevem e escrevem tão bem ou melhor do que eles. Ponto final”.

Redefinindo o Papel Humano na Era da IA

Diante da crescente autonomia da inteligência artificial, o papel dos profissionais humanos se reconfigura para tarefas de maior complexidade e validação. Meira argumenta que a essência do trabalho humano migra da execução repetitiva para a supervisão e o pensamento crítico.

“Qual é o meu papel? É definir se o código deve ser escrito ou não. Definir que código escrever, como escrever, para quem escrever o código. Validar se o código foi escrito como deveria, se tem ou não tem problemas de funcionalidade (ele faz o que deveria fazer?). Ver se o código tem problemas de segurança. O meu trabalho ficou muito mais complexo. Antes, o que eu fazia? Eu me sentava e escrevia. Agora, eu entrego para uma máquina, ela me entrega o código pronto e eu tenho que validar tudo isso”.

A necessidade de validação, pontua o engenheiro, reside na natureza probabilística da IA. “Eu simplesmente não posso confiar porque ela é uma máquina probabilística e ela tem a probabilidade de dar errado. Digamos que a IA tem 50 possibilidades diferentes de escrever um mesmo código, mas três delas estão erradas e, por alguma razão, ela escolhe um desses caminhos errados. O código parece que funciona, tá todo lindinho, todo coerente, mas ele está errado”.

A Estratégia do Porto Digital: Agentes Inteligentes Obrigatórios

No Porto Digital, polo de tecnologia que Meira ajudou a consolidar, a discussão sobre o impacto da IA não é recente, remontando a 2018. A adaptação é tão crucial que em empresas spin-off do CESAR, a integração de agentes inteligentes nas rotinas de trabalho não é apenas incentivada, mas obrigatória.

Meira revela a política adotada: “Nas empresas que são spin-off [empresas independentes criadas a partir de uma empresa-mãe ou de um centro de pesquisa] do CESAR, é simplesmente proibido você trabalhar sozinho. Você tem que ter um agente inteligente que você construiu, que trabalhe com você. Eu tô falando do RH, do atendimento, do marketing, de tudo. Veja, não é que é incentivado. É proibido.” Ele justifica a medida radical: “Sim! Porque tudo que você fizer, que você repetir, você tem que criar um agente para fazer. Para você parar de repetir coisas, porque é mais barato fazer com a IA. Não é só mais barato, é mais rápido.” A meta é garantir que “Quando o cliente quer uma resposta da gente, você pode estar pegando seu filho na escola, no banheiro, você pode estar onde você estiver. Mas se você pega o que você faz, que é repetitivo, e codifica e coloca um agente inteligente para fazer, o cliente fala com esse agente e tem seu problema resolvido”.

Desaprender para Competir: Impacto da IA no Mercado de Trabalho

A inquietação sobre a substituição de empregos pela IA é uma constante, mas Meira oferece uma perspectiva que enfatiza a necessidade de reinvenção. “A gente tem que desaprender as coisas. Não dá para seguir fazendo as mesmas coisas, independentemente das mudanças”, enfatiza.

Ele usa a transição do transporte no início do século XX como analogia: “Vamos imaginar que a gente estivesse em 1898. Estava surgindo a indústria automotiva, mas o mercado ainda era de cavalos, carroças e carruagens. Em 1903, nos EUA, foram vendidos 11 mil automóveis e 2,5 milhões de carroças. Dez anos depois, 1913, foram vendidos 3,6 milhões de carros e quase nenhuma carroça. Quem tinha carroça estava mantendo a sua, mas quem não tinha queria comprar um carro, não uma carroça.” A lição é clara: a não adaptação leva à obsolescência.

A produtividade da inteligência artificial é um fator decisivo para a competitividade. Um projeto que antes exigia uma equipe de dez pessoas por seis meses pode agora ser realizado em um mês por quatro pessoas, um aumento de produtividade de 15 vezes. “O que vai acontecer com as empresas que não conseguirem fazer isso? Não vão conseguir competir. É tão simples quanto isso”, adverte Meira.

Ele reforça a distinção entre inteligência humana e artificial: “Inteligência artificial não é exatamente inteligente, é imitação. São algoritmos imitando a nossa capacidade cognitiva repetitiva. Tudo que é cognitivo e repetitivo será ou já foi ou está sendo impactado agora pela inteligência artificial.” Meira estima que, enquanto algumas áreas veem 95% do trabalho humano impactado, outras menos afetadas experimentam 10%, mas em três anos, “vai ser 100%. Mas não necessariamente substituindo humanos. Talvez aumentando a capacidade de humanos de resolver problemas mais complexos mais rapidamente. Talvez articulando mais humanos dentro do mesmo ambiente para resolver problemas que um humano não consegue resolver sozinho”.

Transparência e Regulação: O Dilema das Plataformas Digitais

Autor do livro A Próxima Democracia, Meira defende uma “transparência radical e política em plataformas” digitais, uma ideia que pode parecer contraditória à primeira vista, dado o controle algorítmico sobre o consumo de informação.

Ele contrapõe a visão ocidental com a abordagem chinesa. “Isso é uma coisa que a gente não sabe no Brasil, mas na China o dissenso é permitido desde que ele seja feito para criar consensos, desde que ele seja feito para resolver problemas. O que não é permitido é agressividade bruta, nua e crua só para destruir, só para atacar.” Na China, as plataformas operam com uma “camada de software que é de Estado”, que impõe regulações como limites de tempo de jogo online para crianças, atrelados ao desempenho escolar.

Questionado se isso seria censura, Meira é categórico: “Não. Isso é consenso. Por que eu devia ter o direito de atacar você? A noção de censura e de liberdade ocidental levada ao extremo é burra. Nas democracias, os radicais, os candidatos a ditadores e autocratas querem ter o direito de destruir a democracia. Como assim!? Você não tem esse direito.” Para ele, “É bom a gente entender a semântica das palavras e das expressões. Eu não tenho o direito de destruir do nada, de graça, a reputação e a vida das pessoas online? Eu não tenho esse direito. E tentar fazer isso, mesmo que eu não consiga, deve ser tratado pelo sistema regulatório da sociedade, que é o sistema judicial”.

Ele compara essa regulação com a educação dos filhos: “O que eu fiz com meus filhos quando eles queriam jogar? Qual é a moedinha que tem que colocar no videogame? Cada 20 páginas lidas de um livro longo dava uma hora de videogame. E tinha arguição: “Qual o papel de Capitu nesse capítulo que você leu?” “Ah porque Capitu não sei o quê…” Não sabe? Tá inventando? Pênalti. Não pode jogar hoje e para não tentar enganar de novo, não pode jogar amanhã mesmo que leia. “Ah, eu não gosto de ler Dom Casmurro”. “E eu também não gosto de trabalhar”.”

As Consequências da Inação Regulatória no Brasil

Com as eleições se aproximando em um cenário de rápida evolução da inteligência artificial e ausência de regulação efetiva, Silvio Meira expressa preocupação com a “incompetência” das gestões recentes.

Ele critica a omissão: “Porque deveria ter havido um esforço para regular plataformas e não houve. Por incompetência de gente que estava nos lugares para fazer e não fez. Agora vamos enfrentar as consequências. Ter um espaço que é um faroeste. Menos faroeste que nos EUA, porque a lei de proteção de dados estabelece proteções muito maiores do que a vasta maioria dos países.” Meira conclui que “a gente tem que fazer o mea culpa e o dever de casa. Deveríamos ter regulado e não criamos espaço político para discutir a regulação. Isso não cai do céu, tem que ser discutido com a sociedade, com a participação das plataformas, inclusive”.

O papel do lobby é inegável, mas não o único entrave, segundo o especialista em tecnologia. “O lobby, de vários lados, impediu que a gente fizesse essa regulação, mas só em parte. Nos mandatos anteriores, inclusive este, houve leniência do Executivo. Toda vez que houve alguma lei de regulação no mundo a articulação foi do executivo.” A conclusão é que o Congresso, sem iniciativa do Executivo e sob pressão de lobbies, raramente avança em regulações complexas que contrariem interesses de mercado.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-05/e-preciso-desaprender-para-conviver-com-ia-explica-silvio-meira

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