UFJF e UFMG se desculpam por uso de cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena

Luta antimanicomial: UFJF e UFMG se desculpam por cadáveres em aulas

© Arquivo Público Mineiro/Divulgação

Universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e de Juiz de Fora (UFJF) vieram a público recentemente para se retratar pelo uso de cadáveres de pacientes de hospitais psiquiátricos em suas disciplinas de saúde. As instituições, que reconheceram as práticas históricas que desumanizaram indivíduos confinados, emitiram declarações formais: a UFJF publicou sua nota nesta segunda-feira (18), enquanto a UFMG já havia se manifestado no mês passado, abordando o grave capítulo da história da saúde pública brasileira.

O Legado de um Passado Obscuro na Saúde Mental

Em sua comunicação oficial, a Universidade Federal de Juiz de Fora abriu sua carta à sociedade admitindo sua “conivência” em um dos períodos mais delicados da saúde pública nacional. O documento da UFJF sublinha que a segregação social, justificada por uma suposta segurança coletiva, não apenas isolou pessoas, mas também gerou múltiplas formas de violência. Indivíduos que não se adequavam a padrões estabelecidos eram submetidos “a condições mínimas de sobrevivência e a práticas punitivas”.

A instituição detalha como esse contexto contribuiu para uma visão distorcida de portadores de transtornos mentais:

“A partir desse contexto, a chamada ‘loucura’ passou a ser associada à ideia de incapacidade e periculosidade, vinculada a uma identidade social deteriorada e desumanizada. Esse processo contribuiu para a consolidação de estigmas e práticas discriminatórias”, diz a nota, enumerando como alguns dos quesitos para hierarquizar as pessoas, no período, gênero, classe social, orientação sexual e raça.

A universidade ainda recorda que o desprezo por essas pessoas era um fenômeno generalizado em todo o país, um aspecto intrínseco à história brasileira, “de modo incontornável”. Nesse cenário de marginalização e invisibilidade de pacientes psiquiátricos, a UFJF destaca o papel do Hospital Colônia de Barbacena como um dos símbolos mais marcantes.

O Hospital Colônia de Barbacena e o Uso de Cadáveres

A dimensão da tragédia em Barbacena é enfatizada pela UFJF, que cita estimativas de que “mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local ao longo do século XX, muitas delas classificadas como indigentes, conforme relatado no livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex”. A obra revela ainda o alarmante número de 1.853 corpos de internos que foram comercializados para instituições de ensino da área da saúde.

Especificamente para a UFJF, os registros indicam que seu Instituto de Ciências Biológicas (ICB) recebeu 169 desses corpos entre os anos de 1962 e 1971, para serem utilizados em aulas de anatomia humana. Como parte de suas ações reparadoras e em busca de dignidade para as vítimas do Hospital Colônia, a instituição se comprometeu a desenvolver e manter iniciativas como programas educativos sobre direitos humanos e saúde mental, além de buscar apoio para a construção de um memorial. A UFJF também planeja organizar pesquisas documentais que investiguem as conexões históricas entre a universidade e o Hospital de Barbacena.

Em busca de uma nova era de respeito, a nota da UFJF destaca a evolução de suas práticas:

“Desde 2010, o Departamento de Anatomia do ICB iniciou a implementação do Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. Desde então, todos os corpos recebidos pela instituição são provenientes exclusivamente de doações voluntárias, além de ações de conscientização e sensibilização à sociedade e a todos alunos ingressantes dos cursos da saúde sobre a importância da doação voluntária de corpos em conformidade com as normas vigentes e com o respeito à dignidade humana previsto em lei”, ressalta o comunicado.

A Retratação da UFMG e o Compromisso com a Ética

Com uma postura semelhante, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também publicou uma declaração formal de desculpas, reconhecendo seus vínculos com o sombrio passado do Hospital Colônia de Barbacena. A UFMG afirmou que o reconhecimento público de sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas é complementado por diversas ações de memória. Entre elas, estão o trabalho conjunto com grupos que defendem a luta antimanicomial, a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema em disciplinas da Faculdade de Medicina, visando promover uma reflexão crítica entre os futuros profissionais de saúde.

A universidade reforçou a dimensão da tragédia humana:

“Ao falecerem, muitas dessas pessoas foram enterradas como indigentes ou tiveram seus corpos destinados a uma das 17 instituições de ensino médico para viabilizar aulas de anatomia”, assinala no informe.

A UFMG também detalhou a transição para métodos éticos e humanizados no ensino de anatomia, afirmando que “Desde 1999, a UFMG conta com um programa de doação de corpos para estudo de anatomia, que funciona de forma voluntária e consentida e é uma prática legal e ética, alinhada a padrões internacionais.”

Reflexões Culturais sobre a Loucura e a Dignidade

O tema da saúde mental e as barbáries manicomiais repercutem intensamente na cultura brasileira. Há uma vasta gama de obras que abordam essa questão, como o famoso conto O Alienista, de Machado de Assis, um dos mais importantes autores negros do país. O legado de profissionais como a psiquiatra Nise da Silveira, que revolucionou os tratamentos para transtornos mentais ao integrar cuidados humanizados e arte, também é um ponto de referência essencial, com seu trabalho podendo ser conhecido no site do Museu Imagens do Inconsciente, localizado no Rio de Janeiro.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/luta-antimanicomial-ufjf-e-ufmg-se-desculpam-por-cadaveres-em-aulas

What do you feel about this?