Lula defende democracia e critica extrema-direita em Barcelona, Espanha

Lula fala para milhares na Espanha e pede coerência dos progressistas

© Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcou presença, neste sábado (18), em Barcelona, Espanha, para a primeira edição da Mobilização Progressista Global (MPG), um encontro que reuniu lideranças e ativistas de esquerda de diversas partes do mundo. Em um discurso contundente, Lula criticou a “ortodoxia” econômica abraçada por governos progressistas e alertou para o perigo crescente da extrema-direita, que soube capitalizar a frustração gerada pelo neoliberalismo. O evento, que defende a democracia com justiça social, serviu de plataforma para o líder brasileiro traçar um panorama desafiador para o campo progressista e propor um caminho de coerência e ação.

Crítica ao Neoliberalismo e a Traição Progressista

Diante de uma plateia de mais de 5 mil pessoas, incluindo chefes de Estado, o presidente Lula iniciou sua fala incentivando a coragem de se assumir como progressista ou de esquerda em um cenário global complexo. “Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade”, declarou.

No entanto, o cerne de sua intervenção focou na autocrítica. Lula reconheceu os avanços obtidos pelo campo progressista em direitos para trabalhadores, mulheres, negros e a comunidade LGBTQIA+, mas pontuou que o desafio persistente é superar o domínio do pensamento econômico neoliberal. Para ele, essa falha abriu uma lacuna perigosa na sociedade.

“O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema”, afirmou o presidente brasileiro, em uma das passagens mais enfáticas de seu pronunciamento.

A Ascensão da Extrema-Direita e a Coerência como Mandamento

Lula enfatizou que a primeira premissa para os progressistas deve ser a coerência entre o discurso e a prática. “Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável”, acrescentou, delineando as aspirações populares que o campo de esquerda deveria abraçar.

Segundo o chefe de Estado, a extrema-direita soube explorar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. “Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”, completou Lula.

Desafios Globais: Bilionários e os “Senhores da Guerra”

Em outro momento de seu discurso, o presidente abordou a questão da desigualdade global, apontando os poucos bilionários que concentram a riqueza mundial como os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica. “Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo”.

Lula também reiterou suas críticas aos países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, referindo-se a eles como “senhores da guerra”. Ele lamentou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, segundo ele, poderiam erradicar a fome e garantir acesso universal à saúde e energia. “O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes”, pontuou.

Democracia Ameaçada e Reafirmação Diária

O presidente brasileiro sublinhou que a ameaça da extrema-direita não é meramente retórica, mas uma realidade tangível, citando o caso do Brasil onde, segundo ele, a “extrema-direita planejou um golpe de Estado”. “Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O papa Leão XIV disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos”.

Lula concluiu que a democracia não é um ponto final, mas um processo que exige reafirmação diária, materializada na melhoria concreta da vida das pessoas para manter sua credibilidade. “Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança”, finalizou.

Agenda do Presidente Lula na Europa

Antes de participar da Mobilização Progressista Global, o presidente Lula esteve presente na quarta edição do Fórum Democracia Sempre, também em Barcelona. O evento, iniciativa lançada em 2024, envolve os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião na capital catalã, organizada por Pedro Sánchez, presidente do Governo da Espanha, contou ainda com a participação dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México) e do ex-presidente do Chile Gabriel Boric.

Após os compromissos na Espanha, a viagem de Lula pela Europa segue para a Alemanha neste domingo (19). Lá, o presidente participará da Hannover Messe, a maior feira global de inovação e tecnologia industrial, que nesta edição homenageia o Brasil, e terá um encontro com o chanceler Friedrich Merz. A agenda europeia de Lula se encerrará em 21 de maio, com uma visita de Estado a Portugal, onde se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e o presidente António José Seguro em Lisboa.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-04/lula-fala-para-milhares-na-espanha-e-pede-coerencia-dos-progressistas

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