Lula critica guerras e defende multilateralismo em Barcelona, Espanha

Pobres não podem pagar por irresponsabilidade das guerras, diz Lula

© Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um veemente discurso contra as guerras em curso e em prol do fortalecimento do multilateralismo neste sábado (18), em Barcelona, na Espanha. Participando da quarta reunião de alto nível do Fórum de Defesa da Democracia, o líder brasileiro enfatizou que os custos dos conflitos armados recaem desproporcionalmente sobre as populações mais vulneráveis do planeta, defendendo a cooperação global como antídoto para a instabilidade.

Um Apelo por Multilateralismo e Paz Global

Em sua intervenção na capital catalã, parte de uma agenda diplomática na Europa, Lula da Silva ressaltou a interconexão das crises globais e suas consequências para o cotidiano. O chefe de Estado brasileiro questionou a lógica dos confrontos ao exemplificar seus impactos econômicos diretos: “O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil, o milho no México, aumenta a gasolina em outro país. É o pobre que vai pagar pela irresponsabilidade de guerras que ninguém quer?”, indagou o presidente.

O presidente sublinhou que a humanidade enfrenta desafios prementes que transcendem os confrontos bélicos, alertando que o cenário mundial atual “não está precisando de guerra”. Ele destacou carências fundamentais que afetam grande parte da população global, afirmando: “Temos mais de 760 milhões de pessoas passando fome, temos milhões de pessoas analfabetas, tivemos milhões de pessoas que morreram porque não tinha vacina contra a covid-19”.

Lula observou que a contemporaneidade registra o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Diante deste panorama, o presidente brasileiro fez um apelo urgente para que a Organização das Nações Unidas (ONU) assuma uma postura mais proativa e coordenada, criticando o silêncio internacional e a passividade frente às hostilidades.

Impacto dos Conflitos e o Papel da ONU

O presidente Lula direcionou suas críticas a algumas das mais severas frentes de batalha contemporâneas, como a invasão russa na Ucrânia, a devastação imposta por Israel na Faixa de Gaza e os confrontos envolvendo os Estados Unidos no Oriente Médio contra o Irã. O líder brasileiro exigiu uma ação mais contundente da ONU, em especial do seu principal órgão deliberativo. “Precisamos exigir que o secretário-geral da ONU convoque reuniões extraordinárias, mesmo sem pedir aos cinco membros do Conselho de Segurança”, defendeu.

O presidente do Brasil foi categórico ao criticar a conduta de potências globais e a dinâmica do Conselho de Segurança da ONU. “Nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países. Nenhum. E os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU devem se reunir para mudar seu comportamento. Nós não podemos levantar todo dia de manhã, e dormir todo dia a noite, com tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra. Ou seja, e todos eles tomam decisão sem consultar a ONU, da qual são eles membros e fazem parte do conselho”, disse Lula. O mandatário enfatizou que o fortalecimento das instituições multilaterais depende do envolvimento e da voz ativa de todos os países. “Fortalecer o multilateralismo depende de nós”, pontuou.

Desafios da Era Digital e a Regulação de Plataformas

Em seu pronunciamento na conferência, Lula da Silva também abordou a crescente ameaça que as plataformas digitais representam para a estabilidade democrática dos países. O presidente defendeu que a própria ONU lidere o debate sobre a criação de normas globais para a regulação desses ambientes digitais. A proliferação de informações falsas foi um ponto central de sua preocupação: “A verdade, nua e crua, é que a mentira ganhou da verdade. Esse é o dado concreto. Para mentir, você não tem que explicar. Para se justificar, você tem que se explicar”, asseverou.

Lula cobrou uma atuação mais enérgica da ONU também neste campo vital da era digital. “Ela precisa funcionar para garantir, por exemplo, que as plataformas sejam reguladas no mundo inteiro, para todo mundo. Não pode o presidente da República interferir na eleição de um país interferir na eleição de outro, pedir voto para outro. Cadê a soberania eleitoral? Cadê a soberania territorial? Esse é um tema que nós precisamos discutir e nos fazer ouvir. E o cenário que temos que brigar é dentro das Nações Unidas”, complementou o presidente, reforçando a urgência da governança digital.

Contexto do Fórum e Próximos Passos na Europa

O evento que sediou o contundente discurso de Lula em Barcelona faz parte do Fórum Democracia Sempre, uma importante iniciativa lançada em 2024 que reúne os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A edição em Barcelona foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou com a presença de diversos líderes regionais e globais, incluindo os presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México), além do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

Após o compromisso na Espanha, que reforçou a posição do Brasil em temas globais, o presidente Lula seguirá sua agenda europeia. Neste domingo (19), a delegação brasileira embarca para a Alemanha, onde o presidente participará da Hannover Messe, a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que neste ano homenageia o Brasil. Ainda na Alemanha, o chefe de Estado terá um encontro com o chanceler Friedrich Merz. A viagem se encerrará no dia 21, com uma rápida visita de Estado a Portugal, onde Lula se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro em Lisboa.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-04/pobres-nao-podem-pagar-por-irresponsabilidade-das-guerras-diz-lula

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