Enamed: Qualidade da Formação Médica Brasileira em Debate

Enamed reforça importância de fiscalizar cursos, dizem especialistas

© National Cancer Institute/Unsplash

O primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) revelou que cerca de 30% dos cursos de medicina no Brasil apresentaram desempenho insatisfatório, com menos de 60% dos estudantes atingindo a nota mínima de proficiência. A maioria dessas instituições são de caráter municipal ou privado com fins lucrativos, o que reacendeu o debate sobre a qualidade da formação médica no país.

Diante dos resultados, o Ministério da Educação (MEC) planeja aplicar sanções às faculdades com piores desempenhos. Paralelamente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) retomou a discussão sobre a criação de um exame de proficiência para avaliar os recém-formados antes da concessão do registro profissional.

Contudo, a professora Eliana Amaral, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, enfatiza a importância de fortalecer o sistema de regulação e fiscalização das faculdades como medida prioritária para garantir a qualidade da formação médica. Ela ressalta que os problemas apontados pelo Enamed já eram, em grande parte, conhecidos através do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Amaral pondera que a qualidade de um curso não deve ser medida apenas pelo desempenho dos alunos em uma prova, lembrando que o Enade já foi utilizado como instrumento de protesto.

A professora ressalta que a formação médica no Brasil sempre foi de “altíssima qualidade”, garantindo que os profissionais formados saibam atender emergências. Ela espera que a discussão em torno do Enamed impulsione a fiscalização das faculdades, principalmente no que diz respeito ao ensino prático, essencial para a formação de médicos competentes. “Onde se aprende a cuidar de gente? Quando você cuida de gente. E pra isso a faculdade tem que garantir um bom estágio de clínica médica, pediatria, cirurgia”, completa.

O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes, concorda com a necessidade de fiscalização, apontando para uma “expansão desenfreada” de vagas de medicina no país, o que pode comprometer o ensino prático, essencial na formação médica. “Quase metade do curso tem que ser feito em campo prático, e isso pressupõe bons laboratórios, bons ambulatórios de atenção básica, unidades de pronto atendimento, de atenção ambulatorial de média complexidade”, afirma. Fernandes defende que a solução para a falta de médicos em algumas regiões não é a abertura de novas faculdades, mas sim a implementação de políticas de alocação de profissionais, com melhoria da infraestrutura e salários mais atrativos.

Eliana Amaral defende um “acordo de sociedade” para aprimorar o cenário atual, com uma regulação séria e a participação do Ministério da Saúde e secretarias de saúde para definir onde os alunos poderão aprender o que precisam.

A estudante de medicina Vanessa Conceição da Cruz, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que obteve nota máxima no Enamed, destaca a qualidade da formação prática oferecida pela instituição, mesmo em uma cidade de interior. “A estrutura é realmente muito boa. Temos os hospitais e parcerias com municípios vizinhos, o que nos permite ter uma uma gama de cenários bem diversificados, mais urbanos, mais rurais”, afirma. Vanessa acredita que a prova conseguiu avaliar bem a formação básica dos formandos e defende a fiscalização constante das faculdades. “É importante que os médicos que estão se formando já tenham essa experiência”, conclui.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-01/enamed-reforca-importancia-de-fiscalizar-cursos-dizem-especialistas