Mestra Fatinha celebra 70 anos e 5º Encontro de Jongo em Pinheiral, RJ
© Marcelo Costa Braga/Midia Ninja
Pinheiral (RJ) — O município de Pinheiral, no sul fluminense do Rio de Janeiro, foi palco neste sábado (25) de uma importante celebração cultural e de resistência: os 70 anos da Mestra Fatinha, Maria de Fátima da Silveira Santos, em conjunto com o 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café e o Dia Estadual do Jongo. O evento reuniu cerca de 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais jongueiras dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, reafirmando a força da cultura ancestral afro-brasileira.
### Jongo como Bandeira de Luta e Memória
A matriarca, Mestra Fatinha, dedicou 50 de seus 70 anos à frente da luta pela preservação da cultura negra na região. Ela iniciou sua militância no Clube Palmares, em Volta Redonda, no final dos anos 80 e início dos 90, e destaca a importância histórica do jongo: “O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, porque os negros escravizados usavam o jongo para se organizar, namorar, cantar a saudade da África, para cultuar os orixás.” A tradição é familiar: “Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país. Na minha família sempre se trabalhou a cultura. Meu bisavô tinha corte de Moçambique [tradição de origem africana também chamado de cortejo ou congada], meu pai era jongueiro, sambista, músico, minhas tias cantavam, minha avó também. Minha mãe está com 93 anos e canta até hoje”.
O local do encontro, o Parque das Ruínas de Pinheiral, é simbólico. A área abrigou São José dos Pinheiros, uma das maiores fazendas de café do período colonial, onde viveram mais de 3 mil negros escravizados. Segundo Mestra Fatinha, os jongueiros atuais são herdeiros diretos dessa tradição mantida por várias famílias da região. A organização Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf), criada pelas lideranças locais, desenvolve atividades no parque para perpetuar essas origens.
### Reconhecimento e Valorização da Cultura Negra
O jongo, também conhecido como congo ou caxambu, é uma manifestação cultural característica do Sudeste brasileiro. Ele foi e continua sendo preservado por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu — principalmente de Congo, Angola e Moçambique — que foram trazidas para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão federal responsável pela preservação do patrimônio cultural do Brasil, reconheceu o jongo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
O trabalho de Mestra Fatinha pela preservação cultural tem sido amplamente reconhecido. “Ano passado a Universidade Federal Fluminense me concedeu o título de notório saber. Já estou dentro da UFF há mais de 10 anos fazendo Encontros de Saberes. É uma referência”, relatou. Esse reconhecimento é fundamental para que as próprias comunidades negras possam contar suas histórias e para que as novas gerações valorizem a luta dos ancestrais, especialmente em regiões onde a memória dos “barões” costuma ofuscar a do “povo preto”.
### O Legado Quilombola em Pinheiral e a Relevância para Goiás
A Fundação Palmares, instituição federal vinculada ao Ministério da Cultura que promove a preservação da cultura afro-brasileira, certificou a região de Pinheiral como comunidade quilombola no ano passado, graças ao trabalho cultural do Jongo de Pinheiral. Agora, o processo segue no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão federal responsável pela reforma agrária e regulamentação fundiária, para a delimitação da área. Esta certificação e o processo de delimitação são cruciais para dar visibilidade e autenticidade à cultura local.
A valorização do jongo e o reconhecimento das comunidades quilombolas têm um impacto que transcende as fronteiras do Rio de Janeiro, ressoando profundamente em estados como Goiás. Assim como o jongo é um símbolo de resistência no Sudeste, manifestações de matriz africana, como as congadas e cortejos de Moçambique — presentes na história familiar de Mestra Fatinha e em diversas cidades goianas como Catalão e Niquelândia — são pilares da identidade cultural afro-brasileira no estado. O movimento nacional pela preservação desses saberes e a luta por reconhecimento territorial das comunidades quilombolas fortalecem a identidade cultural e a memória histórica em todo o país, incluindo o Centro-Oeste goiano, que também possui um rico patrimônio afro-brasileiro.
### Continuidade e Festejos da Tradição
O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma iniciativa conjunta do Jongo de Pinheiral, Rede de Jongo do Vale do Café, Instituto Floresta, Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e do Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (Creasf). A programação festiva se estende para este domingo (26), que marca o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo. As celebrações incluem uma procissão para Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira, seguida de ladainhas em sua homenagem. A procissão, uma tradição local com mais de um século, terá início às 18h na Casa do Jongo de Pinheiral, reforçando os laços entre fé, cultura e ancestralidade.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-07/vale-do-cafe-celebra-70-anos-de-mestra-fatinha-e-encontro-dos-jongos
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