FAS e parceiros inauguram 2 postos de saúde para ribeirinhos em Carauari (AM)
© Lucas Bonny/FAS
Carauari (AM) — Duas novas unidades de saúde, inauguradas na última semana no município de Carauari, no Amazonas, prometem transformar o acesso à saúde para cerca de 4,7 mil pessoas em 56 comunidades ribeirinhas da região. Parte do projeto “SUS na Floresta”, a iniciativa encurta distâncias que antes exigiam dias de viagem de barco para um simples atendimento, um desafio que ressoa em outras vastas regiões rurais do Brasil, incluindo o interior de Goiás. Os postos de atendimento, instalados nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em Campina e Bauana, visam reforçar a Atenção Primária à Saúde e integrar serviços essenciais ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Para grávidas como Aldeniza Silva e Silva, da comunidade de Boa Vista, que espera o quinto filho, o trajeto até a zona urbana de Carauari podia levar até três dias de rabeta, dependendo do nível do rio. Por conta dessa dificuldade, ela conseguiu fazer apenas três consultas de pré-natal, abaixo do mínimo de seis recomendado pelo Ministério da Saúde. Maria Valkiane Freitas e Silva, de Bauana, enfrentava uma jornada de 12 horas e custos que podiam chegar a R$ 160 só para ir, e “duas ou três” botijas de combustível para voltar. A chegada dos novos pontos de apoio representa um alívio significativo. “Agora [a distância] é só de uma praia”, comemorou Aldeniza, que agora pode seguir seu pré-natal em Campina.
### Saúde Mais Próxima da População
Os recém-inaugurados pontos de atendimento em saúde foram estrategicamente localizados nas regiões de Campina e Bauana, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari. A unidade de Bauana foi batizada de Raimundo Ribeiro de Lima (Saborá), e a de Campina, em homenagem à líder comunitária Laice Santos do Nascimento. Rumores sobre a novidade já circulavam entre os ribeirinhos, gerando expectativa. Cecilia Bispo de Lima, da comunidade São Francisco, expressou o sentimento: “Caso a gente adoeça, tem um meio melhor para a gente ser atendido porque é perto daqui. Não tem nem comparação de ir na cidade, que é muito longe. Às vezes, não dá tempo nem de chegar lá”.
As estruturas são adaptadas à realidade local, com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e equipamentos de telessaúde. Elas também contam com áreas para a permanência das equipes de saúde. Cada unidade terá um enfermeiro e um técnico de enfermagem que se revezarão em períodos de 15 dias, conforme explicou Manoel Brito, secretário municipal de saúde de Carauari. Atendimentos médicos e odontológicos mais complexos poderão ser pré-agendados ou realizados por teleconsulta com profissionais da cidade. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, em Campina, destacou a variedade dos atendimentos iniciais: “Atendemos desde atenção a ferimentos graves, que poderia ser uma indicação de resgate, até pré-natal. Já fizemos atendimentos de hipertensos além de outros, que são mais corriqueiros aqui, como gripe”.
### Reforço ao Sistema Único de Saúde
O projeto “SUS na Floresta” é uma iniciativa robusta, integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), e desenvolvida por meio de uma parceria público-privada. É o resultado de um edital do programa Juntos pela Saúde, executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em colaboração com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, sob a gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, ressaltou: “Um princípio fundamental deste projeto […] não é criar uma estrutura paralela ao SUS, mas sim reforçá-la. Os pontos de atendimento são implantados em parceria com as prefeituras e as secretarias municipais de Saúde, e os profissionais responsáveis pelo atendimento estão vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família”.
O projeto começou a ser estruturado pela FAS em 2020, durante a pandemia de covid-19, quando muitas comunidades ribeirinhas ficaram desassistidas. Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, pontuou: “O sistema não estava preparado para as situações que envolvem calamidades públicas, sejam elas por meio de uma pandemia ou por meio de efeitos climáticos, como catástrofes”. Com a inauguração das unidades em Carauari e uma primeira em Eurinepé, o projeto soma três pontos de atendimento, com a previsão de mais três em Itapiranga e Novo Aripuanã, além de um alojamento para profissionais em Uarini.
### O Modelo Adaptado e Suas Lições para Regiões Rurais
A estratégia do “SUS na Floresta” em Carauari, de adaptar a atenção primária às particularidades geográficas e culturais das comunidades ribeirinhas, oferece um modelo relevante para o desafio universal de levar serviços de saúde a áreas remotas. A dependência de rios para deslocamento, a sazonalidade e a distância dos centros urbanos criam barreiras significativas, resultando em subnotificação de doenças e agravamento de quadros que poderiam ser simples. A telessaúde, por exemplo, permite que pacientes se consultem com médicos sem precisar se deslocar por dias. “Antes o morador ia lá para a cidade só para ter uma consulta. Agora não, tem teleconsulta aqui no polo”, afirmou a técnica de enfermagem Denise de Sousa Brito.
Para estados como Goiás, com vastas áreas rurais e municípios distantes dos grandes centros urbanos, a experiência de Carauari demonstra a importância de soluções inovadoras. A aplicação de telessaúde, a criação de postos de atendimento descentralizados e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde são estratégias que podem inspirar a superação de desafios logísticos e geográficos enfrentados por comunidades isoladas no interior goiano. Jefferson Martins Honorato, enfermeiro em Bauana, ilustra o impacto: “Se estivermos perto deles, eles vão nos procurar”. A aproximação da saúde básica às comunidades, seja por rios ou estradas rurais, permite a prevenção de agravamentos, a continuidade dos tratamentos e a efetivação do direito universal à saúde, adaptando-o às necessidades de cada território.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-07/projeto-leva-atendimento-medico-comunidades-ribeirinhas-do-amazonas
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