Parada LGBTQIA+ na Lapa, Rio, exige direitos e foco em eleições.
© Rovena Rosa/Agência Brasil
A região central do Rio de Janeiro foi palco de uma vibrante manifestação política e social no último domingo (28), quando a 4ª Parada LGBTQIA+ da Lapa tomou conta dos Arcos para celebrar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Sob o potente tema “Nosso Orgulho Também se Defende nas Urnas”, o evento transcendeu a festividade, consolidando-se como um grito coletivo por mais representatividade política e o fim das violências históricas contra a comunidade LGBTQIA+. Um manifesto formalizando as demandas de uma parcela significativa da população brasileira foi divulgado, pressionando por maior presença de parlamentares que defendam suas pautas no Congresso Nacional, em ano de eleições.
### A Urgência da Representação Parlamentar
A mobilização da Parada LGBTQIA+ na Lapa teve como objetivo central transformar o espaço em um fórum de fortalecimento comunitário e enfrentamento às adversidades que afetam travestis, transexuais, pessoas trans periféricas, lésbicas, bissexuais e intersexo. A fundadora da Casa Nem, Indianarae Siqueira, enfatizou a importância de eleger representantes verdadeiramente alinhados com as necessidades do movimento. “Como estamos em um ano eleitoral, o povo será, mais uma vez, chamado a decidir os rumos do país. Mas não basta eleger governos. Nós precisamos eleger parlamentares comprometidos com a democracia, os direitos sociais, a vida do povo. Não queremos parlamentares inimigos do povo e amigos de banqueiros”, declarou.
A luta por representatividade se estende à garantia de uma vida digna para a classe trabalhadora, especialmente os indivíduos LGBTQIA+ que frequentemente se encontram em situações de trabalho precarizado. Indianarae Siqueira detalhou as reivindicações laborais do movimento: “Defendemos o fim da escala 6 x 1 e um salário mínimo digno de R$ 2 mil ainda este ano para os trabalhadores brasileiros e condições justas para as pessoas autônomas e profissionais informais”. Além disso, o manifesto reforça outras pautas cruciais para a comunidade LGBTQIA+, como empregabilidade trans, acesso a educação e saúde pública de qualidade, implementação de políticas públicas humanizadas e a universalização dos direitos básicos para todos.
### Desafios e Lacunas Legislativas para a Comunidade LGBTQIA+
A pauta da segurança pública também esteve em evidência na Parada LGBTQIA+, com coletivos signatários do documento reivindicando proteção efetiva para mulheres, pessoas negras, periféricas e, evidentemente, a comunidade LGBTQIA+. A demanda é para que essas populações sejam reconhecidas e tratadas dentro do sistema de segurança, e não estigmatizadas como um problema ou, pior, como criminosos, uma vez que, historicamente, são os alvos mais frequentes da violência.
Marcio Villard, coordenador do Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro, trouxe à tona uma preocupante constatação: a ausência de legislação específica que ampare os direitos da população LGBTQIA+ no Brasil. Segundo ele, as garantias existentes dependem majoritariamente de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e de juízes estaduais, sem o respaldo de leis aprovadas pelo poder Legislativo. “Nós não temos, através do Legislativo, nenhuma lei. A gente tem garantias através da Justiça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de decisões de juízes nos estados. Precisamos ter, como a Argentina e a Colômbia têm, leis aprovadas pelo Legislativo que garantam direitos”, afirmou, ao contextualizar que, embora a LGBTfobia tenha sido equiparada ao crime de racismo em 2019 por decisão do STF, na prática, essa medida “não funciona”.
Villard expressou preocupação com o crescimento anual de assassinatos e atos de violência contra pessoas LGBT, que permanecem subnotificados pelas autoridades. “Parece que não acontece, quando, na verdade, acontece todos os dias”, lamentou. O coordenador também pontuou retrocessos recentes, como a proibição de terapia hormonal antes dos 21 anos e tentativas de barrar a realização de paradas em vias públicas sem a presença de crianças e adolescentes, reforçando a falácia dessa última proposta: “Nós somos uma democracia. Existem famílias de LGBTs que têm filhos”.
### O Voto como Ferramenta de Resistência e Democracia
Diante do cenário de desafios e da proximidade das eleições, Indianarae Siqueira reforçou o compromisso da comunidade LGBTQIA+ com a democracia, garantindo que os eleitores irão às urnas em outubro para se opor a “golpistas”. A mensagem é clara: “Nossos corpos são políticos, nosso voto é resistência”. O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ na Lapa, portanto, serviu como um palco para reafirmar a força e a determinação do movimento em defender seus direitos e a própria democracia brasileira.
### Diversidade e Celebração no Coração do Rio
A 4ª Parada LGBTQIA+ da Lapa foi cuidadosamente organizada por uma ampla coalizão de movimentos sociais e coletivos, que inclui a CasaNem, Grupo Transrevolução, Fórum Estadual de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (Fórum TT RJ), Marcha Trans RJ, Liga Transmasculina Carioca João W. Nery, coletivos trans de diversas universidades (UFF, UFRJ, UERJ), Associação de Gays e Amigos de Nova Iguaçu e Mesquita (AGANIM), Artgay, BrCidades-Rio, Fórum LGBT de Maricá, Frente LGBTIA+, Grupo Pela Vidda e o Coletivo LGBTI+ do Movimento Negro Unificado (MNU LGBT).
As atividades do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ na capital fluminense tiveram início com um festival de pipas no Aterro do Flamengo, iniciativa do Grupo Arco Íris, seguido por um piquenique temático na Praça Paris, também com a participação do Grupo Arco Íris. Além da celebração e da mobilização política, o evento ofereceu serviços essenciais à comunidade, como testes rápidos de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), com distribuição de preservativos e gel lubrificante. A dimensão econômica da comunidade também foi destacada por meio de uma feira que reuniu 30 empreendedores LGBTQIA+, apresentando seus produtos e serviços ao público.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-06/parada-lgbtqia-no-rio-defende-mais-representantes-no-legislativo
