Professora de robótica com sucata de SP é eleita a mais influente do mundo

"Estudante deve errar, idealizar e construir", diz professora premiada

© Débora Garofalo/Arquivo pessoal

A educadora brasileira Débora Garofalo, reconhecida globalmente por seu trabalho inovador com robótica e sucata, foi agraciada com o título de “Professora Mais Influente do Mundo” na nova categoria Global Teacher Influencer of the Year, durante cerimônia em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em 2026. A distinção celebra uma trajetória docente que transcende os muros da sala de aula, impactando milhares de estudantes e inspirando políticas públicas de educação. No Brasil, sua relevância foi novamente destacada na última quinta-feira (11), quando recebeu o Prêmio Faz Diferença 2025, na categoria Educação, em evento realizado na Casa Firjan, no Rio de Janeiro, consolidando seu status como uma das vozes mais importantes no cenário educacional contemporâneo.

O Legado de um Projeto Pioneiro

A jornada de Débora Garofalo começou em 2015, quando, como professora de Língua Portuguesa em uma escola pública municipal de São Paulo, a EMEF Almirante Ary Parreiras, decidiu inovar. A unidade escolar, localizada em uma região da periferia da zona sul da capital paulista cercada por quatro grandes favelas, enfrentava altos índices de violência e tráfico de drogas. Uma oportunidade de atuar em tecnologia e inovação abriu-se, e Débora enxergou ali a chance de ressignificar o ambiente educacional.

“O projeto de robótica com sucata nasceu no ano de 2015, na EMEF [Escola Municipal de Ensino Fundamental] Almirante Ary Parreiras, que é uma escola concentrada entre quatro grandes favelas da cidade de São Paulo, com alto índice de violência, alto índice de tráfico de drogas. Ali, também enxerguei a oportunidade de sair da minha zona de conforto, como uma professora de língua portuguesa, para me candidatar a uma vaga de tecnologia e inovação que tinha surgido”, detalhou Débora Garofalo em entrevista à Agência Brasil.

Após uma pesquisa com os alunos, a educadora identificou o lixo como um problema central na vida de 70% dos estudantes, causando desde impedimentos no acesso à escola até doenças como dengue e leptospirose. Diante desse cenário, uma decisão transformadora foi tomada. “Diante daquele cenário, eu falei: ‘Bom, eu só tenho dois caminhos. Ou vou me lamentar ou eu vou pegar esse lixo como objeto de conhecimento. Eu preferi a segunda opção, mesmo sabendo que ia dar muito trabalho’”, relembrou. O primeiro protótipo, um carrinho feito com lixo e uma bexiga, aplicando a Terceira Lei de Newton, tornou-se um fenômeno na escola, indicando o caminho para um novo modelo de educação tecnológica. “No dia seguinte, uma colega bateu assim no meu ombro e falou: ‘Débora, eu não sei o que você fez com as crianças ontem, mas ali fora tem um monte de criança com tampinha, com rolinho, com bexiga, falando que quer ter aula com a professora de robótica’. Eu soube que tinha encontrado um caminho, só precisava ser lapidado.”

Impacto Social e Reconhecimento Nacional

A iniciativa de robótica com sucata rapidamente se expandiu para além da sala de aula, engajando a comunidade. Feiras de tecnologia promovidas pela escola se tornaram eventos de integração, chegando a reunir mais de 500 pessoas em 2019. Nesses encontros, eram apresentados protótipos fantásticos criados pelos alunos, como pipoqueiras de lata, filtros de água e sensores para alertar sobre transbordamento de córregos.

Em apenas três anos e meio de aplicação, o projeto demonstrou resultados sociais e educacionais impressionantes. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola, nos anos finais, saltou de 4,2 para 5,2 – a média nacional da época. Mais de uma tonelada de lixo foi removida das ruas e transformada em projetos inovadores. A evasão escolar foi reduzida em 93%, especialmente entre crianças em situação de risco, que eram envolvidas nos projetos voluntariamente e recebiam alimentação e certificado. A educadora brasileira também liderou uma redução de 95% no trabalho infantil, um ponto que considerava essencial. “Comecei também a fazer um trabalho, trazendo o setor público, trazendo o juiz para dentro da escola, para conscientizar os familiares da importância de não haver esse tipo de situação. Então, foi um trabalho que impactou realmente toda aquela comunidade.”

Transformando Experiência em Política Pública

O sucesso do projeto de robótica chamou a atenção, levando Débora Garofalo a aceitar um convite para integrar a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Seu objetivo era transformar sua metodologia em uma política pública em educação, alcançando 5,4 mil escolas e 3,7 milhões de estudantes. O desafio era grande, pois não era sobre replicar a coleta de lixo, mas sim a essência da criatividade.

“Eu aceitei o convite para ir para a Secretaria Estadual de Educação para tornar esse trabalho currículo do Estado de São Paulo e implementar para 5,4 mil escolas e 3,7 milhões de estudantes. Foi um desafio muito grande, porque eu não queria que os professores recolhessem o lixo nas ruas como eu, mas eu queria que eles trabalhassem com essa questão do material por entender o poder da criatividade, e a importância disso para o processo de ensino-aprendizagem”, explicou.

Durante sua gestão, foram criados o Expo Movimento Inova, um evento que reunia estudantes de todo o estado, e o Centro de Inovação da Educação Básica Paulista (CIEBP), transformando escolas ociosas em polos de inovação. Em 2022, Débora deixou o estado com 18 dessas unidades ativas, uma carreta móvel e um currículo de tecnologia e inovação que antecedeu a BNCC da Computação. Posteriormente, a educadora levou sua experiência para o Rio de Janeiro, auxiliando na estruturação dos Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs), que resultou no lançamento de 300 escolas vocacionadas ao uso de inovação educacional. Atualmente, ela apoia outros estados e municípios através de formação docente e consultoria, expandindo o alcance de sua visão.

Do Nobel da Educação ao Influenciador Global

Em 2019, o trabalho de Débora Garofalo já havia a catapultado para o cenário internacional, quando foi uma das dez finalistas do Global Teacher Prize, conhecido como o “Nobel da Educação”, tornando-se a primeira brasileira e sul-americana a alcançar tal feito. Anos depois, em 2026, uma nova surpresa aguardava a professora.

“Eu estava em casa bem quietinha este ano, porque para mim eu já atingi o meu máximo, sabe? Agora, é só continuar a trabalhar, continuar essa militância”, ela narra, descrevendo a ligação inusitada que recebeu de madrugada. “Aí, eu recebi uma ligação de madrugada, em um sábado. A pessoa insistiu, 3h da manhã, e eu atendi. Eram os organizadores do prêmio, falando que eu tinha que ir para Dubai. Falei: ‘Não. Não vou. Não tem nada comprado, este ano não fui convidada’. Disseram: ‘A gente já comprou a passagem para você, você pega o avião agora uma hora da tarde. Você vai ter um reconhecimento’.”

A viagem para Dubai revelou a nova honraria. Em um jantar de mil pessoas, o anúncio foi feito: o prêmio Global Teacher Influencer of the Year, uma nova categoria criada para reconhecer o impacto de professores fora da sala de aula, especialmente na criação de políticas públicas. “Quando cheguei lá e me deram a programação do prêmio, eu já imaginava. Eles fizeram um jantar muito bonito para reconhecer os professores. No final, começaram a falar do meu trabalho, veio uma luz na minha cabeça, todo mundo olhando para mim. Imagina um auditório, um jantar de 1 mil pessoas, e todo mundo olhando para você. Eles fizeram um júri internacional, era uma categoria nova, o Global Teacher Influencer. Então, eu estava sendo reconhecida pelo impacto do meu trabalho fora da sala de aula, por ter causado todo esse impacto como política pública, e eu fui a primeira a receber esse prêmio. Eu desabei.”

O momento foi carregado de emoção e reflexão. “Eu estava no mesmo lugar de 2019, mesmo hotel. Eu vou confessar para você que eu estava com a mesma roupa. Passou um filme na minha cabeça, sabe? Naquele momento, eu me senti muito feliz, porque eu não estava ali sozinha. Eu estava com todos os professores brasileiros, com todos os estudantes que diariamente lutam”, compartilhou Débora Garofalo.

Desafios da Tecnologia na Sala de Aula

Apesar dos avanços e reconhecimentos, Débora Garofalo aponta os obstáculos significativos para a implementação eficaz da tecnologia na educação no Brasil. A BNCC da Computação, aprovada em 2022, é obrigatória, mas muitos professores e secretarias de educação ainda não têm o suporte necessário.

“Estamos num momento especial no nosso país, em que temos um documento norteador, que é a BNCC e agora a BNCC da Computação. Esse documento foi aprovado em 2022, nós estamos em 2026, com a obrigatoriedade de fazer este ano, e os professores não sabem como fazer. Por quê? Se a gente olha os dados, as secretarias não têm suporte técnico, não têm recursos, não têm infraestrutura, não têm equipe técnica, não têm como fazer formação. Temos que evoluir nesses quesitos”, destacou.

Para a professora, a tecnologia avança rapidamente, e os jovens de hoje já nascem conectados. O desafio, portanto, não é proibi-la, mas integrá-la com criticidade, ética e responsabilidade. “Para mim, só proibir celular na sala de aula é um tiro no pé. A gente proibiu o celular porque era muito mais fácil, mas isso não vai resolver o problema da educação. O que resolveria? Trazer uma educação midiática para dentro da sala de aula, ou seja, formar professores para isso e os professores poderem então formar os estudantes para essa concepção.”

A inovação educacional exige mais do que apenas ferramentas. Ela enfatiza que a tecnologia, por si só, não resolve os problemas da educação; precisa vir acompanhada de soluções de problemas, amabilidade, e permitir que o estudante passe por erros e frustrações. Este é o cerne da Educação 5.0, que busca humanizar o processo e desenvolver habilidades socioemocionais.

Além das Telas: A Essência da Educação Tecnológica

Débora Garofalo defende que a tecnologia na escola não se restringe ao uso de telas. Ela exemplifica com a experiência de São Paulo, onde cada estudante recebeu um tablet, mas os índices de aprendizagem não melhoraram significativamente. A questão, segundo ela, reside na intencionalidade pedagógica.

“Eu queria desmistificar. Vou te dar exemplos práticos: São Paulo tem um tablet para cada estudante. Resolveu o problema da educação e melhorou os índices de aprendizagem? Não. Por quê? Porque isso não está atrelado à questão da intencionalidade pedagógica. A crítica que eu faço não é sobre a questão de ter ou não infraestrutura. Eu vou sempre brigar, até como gestora pública, para que a gente tenha infraestrutura. O ponto que eu quero chegar é a intencionalidade que vai chegar na ponta”, explicou a professora mais influente. Ela ressalta que muitas soluções vêm de atitudes e da capacidade de transformar problemas em oportunidades. “Eu comecei a trabalhar com os meus estudantes, eu não tinha conhecimento, eu queria trabalhar programação, robótica, sem ter um kit específico. Onde eu encontrei a solução? No próprio problema que eles trouxeram. O lixo foi uma solução e abriu portas para que a gente pudesse trabalhar de maneira diferenciada. O que a gente precisa muitas vezes é olhar para o lado e entender que o simples funciona.”

Democratizando a Criatividade com Livros

Com o objetivo de compartilhar sua metodologia, Débora Garofalo lançou o livro Robótica com Sucata – Uma aventura pela criatividade, pela editora Moderna. A obra, que já tem um segundo volume e um terceiro a caminho, surgiu da demanda de outros educadores que buscavam aplicar o projeto em suas salas de aula.

“O livro foi uma grande alegria, porque muitos professores perguntavam: ‘como eu aplico o seu projeto em sala de aula?’ A ideia foi criar um livro muito ‘mão na massa’, mas que trouxesse também a questão da leitura e da literatura, para que o estudante pudesse percorrer momentos da história [da ciência]”, descreveu. O almanaque visa democratizar o acesso à criatividade, mostrando que é possível transformar objetos do cotidiano, como um copo em um abajur ou peças de um brinquedo em um robô.

A filosofia por trás dos livros e do trabalho de Débora Garofalo é a da aprendizagem ativa. “A gente passou muito tempo com uma educação tradicional passiva. E a gente sabe que a aprendizagem, para ser efetiva, ela precisa ser ativa. Para isso, o estudante tem que errar, tem que idealizar, tem que construir, tem que testar, tem que colaborar. Por isso, é tão importante uma educação mão na massa.” O sucesso da série de livros é mais um testemunho da relevância do trabalho de Débora, que continua a inspirar educadores e estudantes em todo o país.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-06/estudante-deve-errar-idealizar-e-construir-diz-professora-premiada

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