Corpus Christi: jovens de Brasília fazem tapetes e valorizam conexões reais
© Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/
Na manhã desta quinta-feira (4), a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, transformou-se em um vibrante canteiro de arte e fé, reunindo centenas de voluntários para a tradicional confecção dos tapetes de Corpus Christi. Longe das telas digitais e da influência da inteligência artificial, a celebração religiosa se destacou como um palco para a valorização de encontros genuínos e da amizade, em um esforço coletivo que cobriu 125 metros com 27 obras artísticas.
A Arte Manual dos Tapetes de Corpus Christi
Desde as primeiras horas do dia, grupos de diversas regiões do Distrito Federal chegaram à Esplanada para dar vida aos elaborados desenhos que compõem os tapetes. A estudante Vitória Nunes, de 18 anos, que atuava na preparação de areia e tinta para a imagem de um cálice, enfatizou a importância da experiência presencial. “Os encontros ficam mais verdadeiros do que na internet”, afirmou a jovem, que também é coordenadora do grupo jovem da Paróquia de São José, localizada na comunidade periférica de Lúcio Costa. A cena era um contraponto marcante à era digital: adolescentes e jovens adultos se dedicavam aos trabalhos manuais com sal, palha e serragem, trocando conversas, cantos e danças, sem a interrupção de celulares ou tecnologias de IA.
Comunidade e Vínculos Sociais para Jovens
Vitória Nunes destacou o papel transformador da doação e do convívio para os participantes. “Os jovens descobrem um caminho na doação”, disse ela, ao relatar como a igreja de sua comunidade se tornou um refúgio e apoio para adolescentes e suas famílias, especialmente após processos de reintegração de posse que geraram tensão local. A estudante do curso técnico em meio ambiente reforça que a formação de laços de amizade nos grupos contribui significativamente para mitigar sentimentos de solidão e quadros de transtornos mentais, como a depressão. “O apoio da família é muito importante para a gente estar aqui”, acrescentou.
Reflexões sobre a Inteligência Artificial e Conexões Humanas
As observações dos jovens que participaram da montagem dos tapetes de Corpus Christi ecoam preocupações expressas pelo papa Leão XIV. Recentemente, em uma Carta Encíclica publicada no mês anterior, o sumo pontífice fez um apelo pela regulamentação da inteligência artificial, alertando para os perigos de desinformação atrelados ao avanço dessas tecnologias.
Nesse contexto de valorização do trabalho conjunto, a publicitária Luiza Helena Teixeira, de 24 anos, que participa da celebração desde 2019, teve seu desenho escolhido para adornar o tapete da comunidade do Lúcio Costa. “Foi uma inspiração que eu tive. E é muito bom ver todo mundo trabalhando junto”, celebrou a jovem, ressaltando o senso de colaboração que permeia a iniciativa.
Inclusão e Novas Perspectivas na Celebração de Corpus Christi
A diversidade dos participantes na Esplanada era notável. Próximo ao grupo de Vitória, outra equipe, composta por pessoas surdas de uma comunidade periférica, pedia mais inclusão social. Márcio da Cruz, de 36 anos, morador de Planaltina (DF), é um dos integrantes da pastoral há sete anos. Desempregado e com o sonho de trabalhar com informática, ele expressou, através da tradução da professora Daniele Galeno, de 44 anos, uma das coordenadoras da Pastoral dos Surdos, como o convívio nas atividades trouxe novo ânimo à sua vida. “Muitos jovens acabam ficando em casa e só no celular. Essas atividades para eles trazem novo ânimo”, pontuou Daniele.
Vânia Lúcia da Cruz, de 62 anos, mãe de Márcio e de outros quatro filhos ouvintes, observava o filho caçula e os demais jovens na confecção do tapete. Ela lamentou a escassez de oportunidades no mercado de trabalho formal para jovens surdos. “O meu filho sempre teve muito obstáculo com a comunicação. Quando eles se unem, ficam mais felizes, né?”, comentou.
Engajando a Juventude na Fé Presencial
Outro grupo presente, o Movimento Escalada, chegou à Esplanada antes das 7h. A diretora do movimento, a estudante de enfermagem Mariana Abrantes, de 23 anos, destacou o desafio de afastar os jovens das telas para atividades religiosas. No entanto, ela frisou que é possível atraí-los e mantê-los engajados, utilizando uma abordagem que “falando a linguagem deles”.
“As amizades têm que ser cultivadas presencialmente e até além da vida no catolicismo. Eles cantam, dançam e se divertem”, garantiu Mariana, sublinhando que a celebração de Corpus Christi é um exemplo de como a fé e a interação humana podem florescer mesmo em uma era dominada pela tecnologia.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-06/jovens-no-df-se-unem-por-tapetes-de-corpus-christi-e-jejum-de-telas

