Mola gestacional: Daiana desenvolve câncer; UFRJ atende 80 casos semanais
© Tomaz Silva/Agência Brasil
Goiânia (GO) — A cada ano, centenas de mulheres em Goiás podem ser diagnosticadas com a doença trofoblástica gestacional, popularmente conhecida como “mola gestacional”. Esta condição, que afeta entre uma a cada 200 e 400 gestações no Brasil, começa como um tumor benigno, mas pode evoluir para um câncer de placenta maligno, um risco que torna o diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado cruciais para a saúde feminina no estado. A história da terapeuta ocupacional Daiana Nascimento ilustra essa realidade, que a levou de um sonho de gravidez ao enfrentamento de um câncer em poucas semanas.
Compreendendo a Mola Gestacional e Seus Riscos
A mola gestacional é o resultado de um erro na fertilização, onde a formação da placenta é comprometida. Em casos de mola incompleta, um óvulo normal é fecundado por um ou dois espermatozoides com anomalias, gerando uma placenta imperfeita e um embrião inviável. Já na mola completa, um óvulo sem DNA é fecundado, resultando apenas em uma placenta anormal e sem embrião. A gestação precisa ser interrompida para remover a mola, evitando complicações como sangramentos e alterações na tireoide e pressão.
O maior risco, contudo, é a evolução para o câncer de placenta, conhecido como tumor trofoblástico gestacional. Isso ocorre quando células da mola se instalam no útero. Enquanto menos de 5% das mulheres com mola parcial desenvolvem câncer, a taxa sobe para uma em cada cinco na mola completa. Em cenários mais agressivos, o câncer pode gerar metástase, principalmente nos pulmões. O professor de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Antônio Braga, coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, ressalta a diferença da incidência no Brasil em relação a outros países, apontando fatores genéticos, imunológicos e alimentares como possíveis suspeitos, embora sem conclusões definitivas.
A Importância do Diagnóstico Precoce e Centros de Referência
A maioria das pacientes descobre a mola gestacional durante um ultrassom de rotina, após a confirmação da gravidez. A falta de conhecimento prévio sobre a doença é comum, apesar de sua relativa frequência. No entanto, o tratamento adequado é vital. O professor Braga alerta que “quando elas são acompanhadas fora de um centro de referência, elas têm de 10 a 20 vezes mais chance de morrer.” Essa realidade sublinha a necessidade de que os serviços de saúde em Goiás estejam preparados para identificar e referenciar esses casos, garantindo que as mulheres goianas tenham acesso ao melhor tratamento possível.
A Maternidade Escola da UFRJ, que faz parte da rede HU Brasil, é um dos três centros mais importantes do mundo em atendimento e pesquisa sobre mola gestacional, acolhendo cerca de 80 pacientes por semana pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo mulheres de outros estados. A retirada da mola por aspiração uterina é apenas o primeiro passo, seguida por um acompanhamento rigoroso. O hormônio HCG, normalmente produzido na gestação, serve como um marcador tumoral para a doença. Se seus níveis não caírem e se estabilizarem após a interrupção da gravidez, indica o desenvolvimento do câncer, que é tratado com quimioterapia.
Tratamento, Recuperação e Apoio Necessário
Para as mulheres que são tratadas adequadamente, a taxa de cura é alta, e muitas podem, inclusive, engravidar novamente após um período de espera. Daiana Nascimento, que terminou a quimioterapia e tem seu HCG normalizado, aguarda esse momento, um sonho adiado por dois anos. Contudo, o processo de tratamento pode ser física e emocionalmente exaustivo, impactando não apenas a paciente, mas toda a família. Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que desenvolveu câncer de placenta aos 45 anos, optou pela histerectomia e destaca o papel fundamental do apoio familiar e da equipe médica.
O impacto da doença também é logístico e financeiro. Daiana, por exemplo, moradora de São Pedro da Aldeia, precisou de transporte municipal e perdeu dias inteiros para comparecer às consultas e sessões de quimioterapia. A médica Gabriela Paiva, do ambulatório da UFRJ, enfatiza que “a gestação vem com expectativas, não só da paciente, mas também da parceria, da família… Então, elas chegam aqui muito fragilizadas.” Centros especializados, como o da UFRJ, oferecem suporte social e psicológico, fundamental para o acolhimento dessas mulheres. Lucas Felipe, marido de Daiana, reforça a importância de que parceiros e familiares também cuidem de sua saúde mental para oferecer o suporte adequado. Garantir que as mulheres goianas recebam esse suporte integral, desde o diagnóstico até a recuperação, é um desafio que envolve a sensibilização da rede de saúde local.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-07/entenda-mola-gestacional-que-pode-evoluir-para-cancer-de-placenta
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