Gabrielli: Guerra no Irã e choque do petróleo expõem insegurança energética do Brasil
© Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados
A recente escalada do conflito no Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz desencadearam um novo choque do petróleo global, expondo de forma crítica a fragilidade da segurança energética brasileira. A análise é do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que atribui essa vulnerabilidade à interrupção do projeto de ampliação da capacidade de refino no país, reflexo da Operação Lava Jato e da forte pressão exercida por multinacionais do setor.
Gabrielli, que acaba de lançar o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), detalhou em entrevista que a guerra no Oriente Médio provocará uma reconfiguração da geografia do comércio de petróleo. Ele projeta um aumento na participação do Brasil, Canadá e Guiana como fornecedores de óleo bruto para nações como China e Índia. Essa mudança ocorre em meio a tentativas dos Estados Unidos de influenciar o mercado global de petróleo, com intervenções diretas na Venezuela e no Irã.
Apesar da previsão de maior relevância brasileira no cenário internacional, o país enfrenta um desafio interno significativo: a insuficiência de capacidade de refino para suprir sua demanda interna, especialmente de diesel. “Nós não temos capacidade de refino para atender o mercado brasileiro de diesel, gasolina e gás de cozinha. A maior dependência nossa é de diesel, entre 20% e 30% do mercado brasileiro”, afirmou Gabrielli.
O ex-dirigente da Petrobras recordou que, após a Operação Lava Jato, o Brasil inibiu a construção de novas refinarias. Ele apontou que, embora a Petrobras tivesse planos para construir cinco novas unidades, apenas uma foi de fato inaugurada em 2014, a Refinaria Abreu e Lima (RNEST) em Pernambuco. Historicamente, desde 1911, a expansão do refino nacional tem enfrentado resistência, segundo Gabrielli, principalmente de empresas como Exxon e Shell, que sempre controlaram a distribuição no Brasil.
Sobre o papel das importadoras de combustíveis, Gabrielli destacou que, a partir do governo Temer, cerca de 300 dessas empresas foram autorizadas. No mesmo período e no governo Bolsonaro, as refinarias da Petrobras operavam com aproximadamente 50% de sua capacidade, criando espaço para o mercado de importadores. Embora a gestão Lula tenha elevado a taxa de operação das refinarias para até 93% em 2023, essa capacidade ainda não é suficiente para atender à demanda. Gabrielli criticou a postura dos importadores, classificando-os como “claramente especulativos”, pois “eles só importam quando o preço internacional está mais barato do que o preço nacional. É preciso aumentar o preço doméstico para justificar a importação”.
Quanto ao impacto do novo choque do petróleo na transição energética, Gabrielli é categórico: “Não podemos prescindir do combustível fóssil nesse momento. Prescindir do combustível fóssil é a morte, vide o exemplo de Cuba, que está definhando por estar impedida de receber petróleo.” No entanto, ele prevê que, a médio e longo prazo, a alta dos preços e as turbulências atuais impulsionarão a busca por alternativas, acelerando a transição energética.
Em relação ao hidrogênio verde, tema central de seu livro, Gabrielli vê um futuro promissor, mas que exige ações imediatas. Ele destaca que o hidrogênio é essencial para a descarbonização de setores como siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação. Para sua viabilização, é fundamental a criação de novos mercados e que a produção esteja geograficamente próxima ao consumo. A previsão é que o hidrogênio verde domine o mercado de combustíveis por volta de 2035, mas “para que isso aconteça em 2035, as decisões têm que começar a ser tomadas agora”.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/guerra-expoe-risco-energetico-do-brasil-diz-ex-chefe-da-petrobras
