Apyterewa: Parakanã retomam território, enfrentam ameaças e planejam futuro após desintrusão
© Bruno Peres/Agência Brasil
Dois anos após a desintrusão da Terra Indígena (TI) Apyterewa, no sudeste do Pará, o povo Parakanã retoma o controle de seu território, planejando o futuro em meio aos resquícios da ocupação ilegal por produtores rurais e grileiros. Um programa da TV Brasil exibirá o trabalho de órgãos governamentais para proteger a TI e a organização dos Parakanã para manter o controle total sobre suas terras.
As operações de desintrusão, determinadas pelo STF em 2023, iniciaram-se em outubro do mesmo ano, abrangendo nove territórios na Amazônia Legal onde vivem cerca de 60 mil indígenas. Segundo a Casa Civil, a ação em Apyterewa foi a mais tensa, devido à interferência de políticos e fazendeiros. Nilton Tubino relatou: “A grande pressão era a quantidade de gado. Nesse processo, foi construída uma vila que era utilizada próximo da base [da Funai]. No meio da terra tinha um posto de gasolina, vários comércios e igrejas”.
O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) informou que mais de 2 mil não indígenas foram retirados nos primeiros meses, e em março de 2024, a TI foi simbolicamente devolvida aos Parakanã. No entanto, parte do rebanho bovino ainda permanece na área. Apesar da retirada de grande parte das 50 mil cabeças de gado, cerca de 1.300 bovinos ainda estão espalhados pelo território, conforme monitoramento do Ibama.
Em dezembro, uma equipe da EBC acompanhou o trabalho de proteção do território, testemunhando a trágica morte de Marcos Antônio Pereira da Cruz, vaqueiro contratado pelo Ibama, durante uma operação de retirada de gado. Luciane Pereira, irmã de Marcos, relatou: “ele sempre falou que era perigoso, que lá no Pará era perigoso. Só que ele confortava a gente, a minha mãe principalmente, falando que ele estava acompanhado por policiais, por pessoas que iriam garantir a segurança dele lá.” A Polícia Federal anunciou a prisão de um suspeito em janeiro, mas as investigações prosseguem em sigilo.
Marcos Kaingang, do MPI, declarou: “A morte do Marcos não pode ficar impune e não ter nenhum responsável identificado nessa ação porque foi um ataque contra o Estado brasileiro, porque ele estava a serviço de uma determinação judicial”.
No mês seguinte, o carro da associação Tato’a, que representa o povo Parakanã, foi alvo de tiros, e o assessor que o conduzia escapou pela mata. O cacique-geral da TI Apyterewa, Mamá Parakanã, denunciou ameaças, tentativas de invasão e oito ataques às aldeias desde a desintrusão. “A gente recebia e recebe até hoje muita ameaça. Mas a gente está firme aqui porque essa terra foi demarcada, homologada, registrada. Então essa terra é nossa. Não é do fazendeiro, não é do deputado, não é do senador”, afirmou o cacique.
A área de 773 mil hectares, habitada por cerca de 1.400 parakanãs, foi homologada em 2007, mas continuou a ser invadida, tornando-se a terra indígena mais desmatada da Amazônia. O monitoramento do Inpe apontou uma queda de mais de 90% no desmatamento após a desintrusão.
O indígena Oaea Parakanã, já sente os efeitos positivos da retirada dos invasores. “Agora eu acho que está recuperando. Agora tem jabuti, porcão, dá pra gente ver mutum”, disse ele. Dinamam Tuxá, da Apib, enfatiza a importância da manutenção da presença estatal para garantir a posse dos territórios pelos povos indígenas.
Marcos Kaingang assegura que as medidas de proteção continuarão, e o MPI está dialogando com outros órgãos para aumentar a segurança na TI Apyterewa. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou o reforço do efetivo da Força Nacional na região.
Os parakanãs, em parceria com órgãos governamentais, planejam a proteção do território e buscam apoio para reparar os danos causados pelos invasores. Wenatoa Parakanã, da associação Tato’a, informa que o próximo passo é o reflorestamento, com as mulheres já capacitadas para essa atividade. Wenatoa diz que o próximo passo é fazer o reflorestamento “Inclusive, as mulheres já receberam capacitação, como secar a semente, como plantar”.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/povo-parakana-do-para-reocupa-territorio-apos-retirada-de-invasores
