Anvisa ordena recolhimento de produtos Ypê por bactéria Pseudomonas aeruginosa.
© Torvim/stock.adobe.com
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento de diversos produtos de limpeza da marca Ypê, incluindo lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes, após a detecção da bactéria Pseudomonas aeruginosa. A decisão, divulgada na última quinta-feira (7), alerta consumidores a não utilizarem lotes com numeração final 1 dos itens afetados, suscitando preocupações sobre a segurança de produtos amplamente usados no dia a dia.
Especialistas alertam que a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria notável pela sua grande resistência a antibióticos e sua capacidade de sobreviver em diferentes ambientes. O infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, membro titular da Academia Nacional de Medicina (ANM) e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou à Agência Brasil a complexidade desse micro-organismo.
“Agora, excepcionalmente, ela causa doenças de forma espontânea. Ela vai causar doenças dentro de um hospital, em uma pessoa com traqueostomia, com respirador, com cateter venoso”, completou Ferreira Ramos Filho, destacando que a bactéria é principalmente oportunista em contextos de vulnerabilidade.
A Natureza da Pseudomonas aeruginosa
Considerada uma bactéria de “vida livre”, a Pseudomonas aeruginosa diferencia-se de outras, como a Escherichia coli, que habita o intestino, ou o meningococo, encontrado nas fossas nasais humanas. Conforme o infectologista, ela prospera em ambientes como solo, água e superfícies úmidas. “Nós não vivemos em um ambiente que não tem micro-organismos. Existem outras bactérias de vida livre, como a Burkholderia que, eventualmente, podem causar doenças no homem”, pontuou Celso Ferreira.
A presença da Pseudomonas aeruginosa em ambientes cotidianos é comum, e itens como esponjas de lavar louça ou panos de chão podem estar contaminados, uma vez que a bactéria permanece viável na água. Contudo, o grande perigo surge em cenários específicos, especialmente para indivíduos com a saúde já comprometida.
Risco Ampliado para Imunocomprometidos
O principal alerta dos profissionais de saúde recai sobre pessoas imunocomprometidas, ou seja, aquelas com o sistema imunológico debilitado. A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressaltou à Agência Brasil que é nesse grupo que a Pseudomonas aeruginosa representa o maior risco.
“Ela consegue causar infecções em pessoas que têm o sistema imune debilitado”, afirmou Chamon. A bactéria pode desencadear uma série de problemas, desde infecções urinárias e respiratórias em pacientes com doenças pulmonares crônicas, como enfisema, até complicações em indivíduos submetidos a quimioterapia ou que utilizam cateteres intravenosos e tubos na traqueia.
Para pacientes com fibrose cística, por exemplo, a Pseudomonas aeruginosa é uma causa frequente de pneumonia, cujo tratamento é considerado muito complexo. Mesmo indivíduos saudáveis não estão totalmente isentos de risco, dependendo da cepa da bactéria. “Dependendo da cepa da Pseudomonas, mesmo a pessoa saudável pode desenvolver uma infecção, como a otite de nadador, em pessoas que nadam em águas recreativas, como piscinas, rios, praias”, sublinhou Chamon.
O Cenário Hospitalar e a Resistência Bacteriana
O ambiente hospitalar é apontado como o pior cenário para a Pseudomonas aeruginosa. Segundo a médica Raiane Chamon, a bactéria, ao adentrar hospitais – geralmente trazida por funcionários ou visitantes –, encontra um ambiente com alta pressão seletiva de antibióticos. Lá, ela pode desenvolver e carregar múltiplas resistências.
“Esse é o pior cenário de todos”, declarou Chamon, explicando que isso pode levar a infecções graves em pacientes que usam sondas urinárias, sofrem de infecção na corrente sanguínea, estão com pneumonia ou em ventilação mecânica. A dificuldade no tratamento é agravada pela severidade da infecção e pela crescente resistência da bactéria aos medicamentos.
Investigação sobre a Contaminação na Produção
A origem da contaminação da Pseudomonas aeruginosa nos produtos Ypê é objeto de análise. Raiane Chamon sugere que, dado o habitat natural da bactéria em solo e água, a contaminação pode ter ocorrido durante o processo de fabricação.
“Não houve um controle microbiológico adequado. Provavelmente, algum reagente na hora de fabricação desses produtos estava contaminado pela Pseudomonas, e acaba que ela consegue se multiplicar nesses ambientes úmidos também”, explicou a especialista.
A médica ainda complementou que “Na falta do controle microbiológico nas etapas necessárias de fabricação, pode ter tido um crescimento descontrolado de uma cepa específica, que vive melhor em ambientes com detergentes, por exemplo, e a gente acaba detectando, ela, nesses materiais”. É importante ressaltar que produtos têm níveis aceitáveis de contaminação microbiana, mas exceder esses limites representa um risco à saúde, sobretudo para indivíduos imunocomprometidos.
A Posição da Ypê diante do Recall
Em um comunicado emitido na mesma quinta-feira (7) da decisão da Anvisa, a Ypê informou que está colaborando plenamente com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A empresa declarou estar “conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.
A Ypê também destacou que está realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, os quais estão sendo apresentados à Anvisa. A companhia afirmou que essas ações “reforçam o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos”.
Comprometendo-se a incorporar imediatamente quaisquer aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória – desenvolvido em conjunto com a Anvisa desde dezembro de 2025 –, a Ypê busca restabelecer a confiança. A Agência Brasil tentou contato com a assessoria de imprensa da Ypê na sexta-feira (8) para obter mais detalhes, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-05/bacteria-pseudomonas-causa-danos-graves-em-pessoas-imunocomprometidas
