Milton Santos 100 anos: Legado sobre desigualdades urbanas é atual no Brasil.

Milton Santos, 100 anos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades

© Acervo Milton Santos/Divulgação

O legado intelectual do geógrafo Milton Santos, cuja obra continua a oferecer lentes afiadas para a compreensão das disparidades sociais e econômicas no Brasil e no mundo, ganha destaque especial neste 3 de maio, data em que se celebra o centenário de seu nascimento. Suas formulações sobre as dinâmicas urbanas e o espaço geográfico permanecem surpreendentemente atuais, servindo de alicerce para análises que expõem as profundas desigualdades, como as que se manifestam na convivência entre grandes redes varejistas e os mercados populares em metrópoles como São Luís, no Maranhão.

O Gênio de um Pensador Indispensável

Nascido em 3 de maio de 1926 em Brotas de Macaúbas, Bahia, e falecido em 2001 aos 75 anos, Milton Santos consolidou-se como um dos mais importantes nomes da geografia global. Sua trajetória acadêmica incluiu um bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Forçado ao exílio durante a ditadura militar brasileira, ele levou seu saber a universidades da Europa, África e América Latina, retornando ao Brasil para enriquecer o cenário intelectual nacional como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Circuitos da Desigualdade Urbana na Prática

A vitalidade das ideias de Milton Santos é demonstrada em estudos contemporâneos, como a pesquisa conduzida por Livia Cangiano, pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Ela aplicou a teoria do geógrafo sobre os circuitos da economia urbana para investigar as realidades contrastantes de consumo em São Luís, onde o surgimento de mercadinhos e feiras populares se adapta à escassez de recursos da população, em notória oposição às grandes redes de supermercados.

A teoria divide a economia urbana em dois segmentos distintos: o circuito superior, dominado por grandes corporações com alta tecnologia, capital e estrutura organizacional, e o circuito inferior, composto por pequenos negócios e serviços. Este último, embora com menor acesso a recursos, demonstra uma notável capacidade de se ajustar às demandas das populações de menor poder aquisitivo. Livia Cangiano observa que essa segmentação é uma resposta direta à realidade social.

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, explica a pesquisadora. Ela detalha como essa adaptação se manifesta no dia a dia do consumo: “Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”. A relevância dessa abordagem transcende fronteiras, sendo aplicada em projetos de pesquisa que analisam dinâmicas urbanas em Gana, Londres e Paris.

Uma Luta Contra o Racismo e Inspiração para Novos Geógrafos

Milton Santos, um homem negro, enfrentou o racismo estrutural dentro do ambiente acadêmico, mas sua produção intelectual redefiniu a geografia ao interligar economia, política e sociedade. Sua trajetória e obra servem de inspiração para outros pensadores negros, incluindo a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, relata Catia.

A professora destaca que, embora a negritude e a relação entre classe social e raça não fossem o cerne da obra de Milton Santos, sua teoria social crítica das desigualdades fornece um poderoso arcabouço para a análise das questões raciais. Além disso, ele nunca hesitou em se posicionar publicamente sobre o tema. “Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

O Espaço Como Construção de Poder

Para Milton Santos, o espaço geográfico não é meramente um pano de fundo para a existência humana; ele é, de fato, o produto tangível de decisões políticas e econômicas. Sua perspectiva revela que a infraestrutura urbana, seja a presença ou ausência de saneamento, transporte ou acesso à internet, não é resultado do acaso, mas sim de escolhas que favorecem certos grupos e regiões, gerando e perpetuando desigualdades. Ao observar a precarização das periferias em contraste com áreas urbanas valorizadas e saturadas de investimentos, o geógrafo propunha enxergar a materialização de relações de poder.

A geógrafa Catia Antonia da Silva reforça essa ideia: “Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”.

Em sua obra Por uma outra globalização, Milton Santos desmascara o discurso de um sistema que promete integração e progresso, mas que na realidade intensifica as desigualdades em escala mundial. Grandes projetos de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, embora conectem nações e mercados, também reconfiguram territórios locais, exercem pressão sobre comunidades e amplificam a concentração de riquezas. Outro conceito central, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura moldam o território, criando um cenário onde regiões altamente conectadas e tecnologicamente avançadas coexistem com áreas desprovidas de serviços básicos, evidenciando como alguns espaços são preparados para as demandas do mercado global enquanto outros permanecem marginalizados.

Visões para um Futuro Mais Justo

Apesar de seus diagnósticos críticos sobre as raízes das desigualdades, Milton Santos também ofereceu vislumbres de caminhos para a transformação. Ele acreditava firmemente que as mesmas redes e tecnologias que contribuem para o aprofundamento das disparidades poderiam ser apropriadas pelas comunidades locais para forjar alternativas econômicas e sociais. O geógrafo apontava para iniciativas comunitárias, a adoção de tecnologias nas periferias e a organização cooperativa como exemplos claros de que o território pode ser um terreno fértil para a resistência e a reinvenção.

Livia Cangiano sublinha a importância prática de sua abordagem: “Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”. Ela complementa: “Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”.

Centenário Celebra Legado de Milton Santos

O centenário de Milton Santos será marcado por uma série de eventos em todo o país, celebrando a vida e a obra do geógrafo. As programações, em formato híbrido, reunirão pesquisadores, ativistas e o público geral para debater o impacto duradouro de seu pensamento.

Entre os destaques está o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, que ocorrerá de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão virtual, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc organizará, ao longo do mês de maio, um ciclo de palestras dedicado ao geógrafo. Já a Universidade Federal do Tocantins sediará, de 26 a 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, focando no debate internacional sobre a obra de Milton Santos.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-05/milton-santos-100-anos-geografo-negro-teorizou-sobre-desigualdades

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