CNJ e Agricultura firmam acordo para dados de produtores rurais em recuperação judicial

Judiciário contará com dados técnicos para analisar recuperações judiciais do agro

Judiciário contará com dados técnicos para analisar recuperações judiciais do agro

O Judiciário brasileiro deu um passo crucial na semana passada ao formalizar um acordo interinstitucional que promete revolucionar a análise de processos de recuperação judicial de produtores rurais. A parceria, firmada entre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) na sede do CNJ, visa integrar informações agrícolas detalhadas às decisões judiciais, proporcionando maior segurança jurídica e eficiência em um cenário de crescente judicialização do agronegócio. Os ministros Edson Fachin, presidente do CNJ e STF, Mauro Campbell Marques, corregedor nacional de Justiça, e André de Paula, titular do MAPA, selaram o termo que marca uma nova era para a gestão de crises financeiras no campo.

A iniciativa emerge como resposta à complexa realidade enfrentada pelos agricultores, que têm visto um aumento significativo nos pedidos de recuperação judicial. A vulnerabilidade do produtor rural, muitas vezes à mercê de fatores incontroláveis, como clima e flutuações de mercado, impulsionou a necessidade de mecanismos mais precisos para identificar a real situação dos devedores. Com este acordo, a infraestrutura de Verificação Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos (VMG) será incorporada ao sistema judiciário, fornecendo um panorama técnico completo das condições de produção, conformidade socioambiental e viabilidade econômica das propriedades.

Ao comentar sobre a importância do diálogo entre as instituições, o ministro Edson Fachin destacou a natureza colaborativa da medida, que ele classificou como uma “questão de Estado”. “Não basta emitir um despacho, uma decisão e proferir uma certa sentença. É preciso fazê-lo com eficiência e com qualidade”, afirmou o presidente do CNJ e STF. Fachin ressaltou ainda a busca por uma justiça mais conectada à realidade fática: “Nada como as evidências para ter esse sopro legitimador das decisões judiciais. Isso vai nos permitir aproximar o direito dos fatos e não apenas dos autos.” Ele observou a representatividade da mesa, que incluía membros do Executivo, consultores, advogados e representantes do Legislativo e de segmentos do agronegócio.

Rememorando suas próprias origens como filho de pequenos produtores no Sul do país, o ministro Fachin enfatizou que o convênio fortalecerá a prestação jurisdicional e a segurança jurídica para o setor. “Precisamos superar e enfrentar esse conjunto de tensões que o agronegócio brasileiro enfrenta: de ordem climática, de ordem econômica e, por que não dizer também, de ordem estrutural”, declarou.

Dados para Decisões Aprimoradas na Recuperação Judicial

A utilização de dados especializados nas recuperações judiciais de produtores rurais está alinhada ao Provimento n. 216/2026 da Corregedoria Nacional de Justiça, que estabelece diretrizes para magistrados em casos de falência e recuperação judicial no meio rural. O acesso contínuo a informações e a capacidade de monitorar a atividade rural e a conformidade socioambiental das propriedades durante o processo judicial são pilares do novo sistema.

O corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, salientou as particularidades do setor, que demandam uma análise judicial aprofundada. “Estamos lidando com uma atividade sujeita a variáveis que escapam do controle humano. Clima, mercado internacional, custos de produção e que, ao mesmo tempo, possui impacto direto sobre a segurança alimentar, o crédito rural e a estabilidade econômica nacional”, lembrou Campbell Marques. Ele expressou a expectativa de que o uso de tecnologias avançadas, como imagens de satélite, dados de georreferenciamento e análises técnicas, eleve o padrão das sentenças proferidas.

Estrutura da Parceria e Atribuições

Para a efetivação do acordo, as responsabilidades foram divididas entre as instituições signatárias. A Corregedoria Nacional de Justiça será encarregada de fomentar e divulgar a importância da VMG entre os tribunais, além de colaborar com o MAPA na definição de perfis de acesso e formatos de relatórios. O órgão judiciário também incluirá módulos sobre a utilização da infraestrutura nos programas de formação de magistrados.

Por sua vez, o Ministério da Agricultura e Pecuária disponibilizará ao Poder Judiciário os dados, relatórios e atestados provenientes da Infraestrutura de Verificação Agrícola, Monitoramento e Conformidade de Grãos. Em uma ação conjunta com o CNJ, o MAPA promoverá a capacitação de magistrados, servidores, administradores judiciais e peritos, garantindo a correta aplicação e interpretação das novas ferramentas.

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, enfatizou o duplo benefício do acordo: “A iniciativa ajuda a proteger o produtor que realmente enfrenta dificuldades financeiras, ao mesmo tempo em que contribui para identificar possíveis casos de uso indevido da recuperação judicial.” De Paula elogiou a atuação do CNJ, afirmando que a agenda combina “modernização institucional com o enfrentamento qualificado à judicialização. O que estamos construindo aqui é mais do que uma solução técnica, é um avanço na forma como o Estado decide, atua e se organiza”.

O vice-presidente do Fórum Nacional de Recuperação Empresarial e Falências (Fonaref) e conselheiro do CNJ, Rodrigo Badaró, também integrou a mesa, ao lado das conselheiras Jaceguara Dantas e dos conselheiros Guilherme Feliciano, Silvio Amorim Júnior e Ulisses Rabaneda.

Roteiro para Implementação e Monitoramento Contínuo

A concretização das atividades delineadas no acordo será guiada por um plano de trabalho detalhado, que deverá ser aprovado pelas partes envolvidas em um prazo de 60 dias. O cronograma prevê uma implementação em fases, começando pela preparação, onde CNJ e MAPA designarão gestores, selecionarão a comarca do projeto piloto e estabelecerão os perfis de acesso e formatos dos relatórios da VMG.

Na etapa seguinte, o projeto piloto será executado com a liberação do acesso à plataforma, capacitação dos magistrados e servidores da vara escolhida, e coleta de feedback para eventuais ajustes. Essas ações são essenciais para testar o sistema em um ambiente controlado antes de sua expansão.

A fase final contempla a expansão nacional, com a realização de ajustes na plataforma, a elaboração de um cronograma para todos os Tribunais de Justiça do país e a promoção de eventos de divulgação e capacitação. O processo será encerrado com a definição de um ciclo contínuo de monitoramento, incluindo reuniões semestrais entre o CNJ e o MAPA e a elaboração de relatórios anuais de resultados, assegurando a constante avaliação e aprimoramento da parceria para as recuperações judiciais no setor agropecuário.

Fonte e Fotos: ROTA JURÍDICA

https://www.rotajuridica.com.br/judiciario-contara-com-dados-tecnicos-para-analisar-recuperacoes-judiciais-do-agro/

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