Suspeita de público pago em audiência de incinerador exclui moradores de Perus

Habitantes de Perus, em SP, acusam fraude em audiência pública

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Uma audiência pública consultiva para debater a implantação de um incinerador de lixo no bairro de Perus, na capital paulista, gerou intensas discussões e acusações de manipulação. Moradores da região relataram ter sido excluídos do debate, com fortes indícios de que pessoas de fora do território foram recrutadas para a sessão, numa aparente tentativa de desmobilizar a comunidade, que se manifesta contrária ao empreendimento.

Conforme apurou a Agência Brasil, a mobilização externa incluiu a chegada de ônibus em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus. Os passageiros, não reconhecidos pelos habitantes locais, teriam preenchido o local e se inscrito para discursar antes dos moradores de Perus, supostamente com o objetivo de impedir que as vozes da comunidade levassem seus questionamentos e críticas ao microfone.

Uma pessoa contatada pela reportagem confirmou ter recebido dinheiro para estar na audiência como se fosse moradora de Perus. A fonte, cuja identidade foi preservada, detalhou que havia um homem responsável por orientá-los quanto às reações a manifestar, simulando concordância ou reprovação. A pessoa explicou que, há cerca de três anos, busca oportunidades de trabalho em grupos voltados a formar público para programas de auditório populares.

A lotação máxima do teatro do CEU resultou na exclusão de cerca de 500 moradores, que foram impedidos de entrar e participar. Televisores foram instalados no salão de entrada, mas o espaço foi insuficiente, deixando muitas pessoas, inclusive crianças, aguardando sob chuva. Do lado externo, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) estavam em formação, armados com escudos e gás de pimenta, e teriam proibido a fala de vereadores, uma acusação negada pela assessoria da prefeitura. Após insistência, três representantes do povo guarani mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, historicamente ligada a Perus, conseguiram ter acesso.

O projeto, oficialmente denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga) e visa ao tratamento de resíduos de saúde. A companhia remete seus estudos e documentos à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para o processo de licenciamento.

Mario Bortoto, engenheiro químico e uma das lideranças do movimento de resistência, classificou a forma como a audiência foi conduzida como justificativa para a organização de uma consulta popular pelos próprios moradores. Bortoto afirma que o novo incinerador é considerado ultrapassado em outros lugares do mundo, gerando apreensão não somente pelas cinzas tóxicas liberadas, mas também pela grande quantidade de caminhões que circulará na região. Para ele, a prefeitura não teria condições de fiscalizar os parâmetros ambientais, e a aprovação do projeto agravaria os problemas de saúde em uma população já carente de atendimento.

“Os médicos às vezes não querem trabalhar na periferia, por questão de segurança, por estar muito longe. Temos um problema sério de vazio assistencial de saúde nesse território. Além disso, temos problemas de moradia. Muitos prédios sendo levantados sem a infraestrutura necessária para receber os novos moradores. Problemas na educação, falta de equipamentos de cultura. Os mesmos problemas que a periferia de São Paulo tem, a gente tem também”, resumiu Bortoto.

Outra líder das articulações, a química e consultora da WWF Brasil Thais Santos, que acompanha os levantes anteriores desde a adolescência, lamentou: “A audiência era para ser um espaço democrático. Só que o que a gente viu foi uma manipulação de informação, manipulação da audiência”, observando que o horário da audiência coincidia com o expediente da maioria dos moradores, da classe trabalhadora. Os moradores e ativistas ambientais propõem, em vez do incinerador, a criação de um “Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera” para a área, valorizando a relação com a natureza e a resistência política.

Perus é uma região marcada por um histórico de estigmas, desde a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, usada para esconder corpos de perseguidos políticos durante a ditadura, até a proximidade com instituições como o Hospital Psiquiátrico do Juquery, conhecido por violações de direitos humanos. O “Mapa da Desigualdade”, com dados de 2024, indica uma expectativa de vida média de 62 anos no distrito. A comunidade já sofreu pressões anteriores para aceitar empreendimentos semelhantes, como aterros sanitários.

O Outro Lado

Questionada pela reportagem, a Cetesb afirmou que todas as colocações feitas na audiência serão incluídas no processo de licenciamento e levadas em conta na análise. A companhia informa que o projeto referente à URE em Perus “encontra-se em fase de análise técnica” e “segue o rito legal de licenciamento ambiental, baseado no Estudo e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) apresentados pela empresa.”

Em nota conjunta, a SP Regula e a Loga defenderam que as UREs, previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, “não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980”. Elas são, segundo as empresas, “instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países”. A URE Bandeirantes, que integrará o Ecoparque Bandeirantes, terá capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, com o objetivo de reduzir o volume de resíduos em aterros, gerar energia, criar empregos e ampliar a proteção ambiental.

SP Regula e Loga reforçam a importância da participação popular e informam que a audiência pública teve o objetivo de apresentar o projeto, tirar dúvidas e colher contribuições. A Loga nega ter realizado “qualquer tipo de oferta, vantagem ou benefício a lideranças ou participantes, não havendo qualquer evidência que sustente as alegações mencionadas”. A presença do público, segundo as empresas, ocorreu de forma espontânea, respeitando a ordem de chegada e o limite de capacidade do local, em conformidade com as normas de segurança e o rito do licenciamento. Elas reafirmam seu compromisso com a transparência e o diálogo, ressaltando que o debate sobre o projeto deve se basear em informações técnicas, dados oficiais e no processo regular de licenciamento ambiental.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-04/moradores-de-perus-em-sp-acusam-fraude-em-audiencia-publica

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