Sanções dos EUA e crise na Venezuela: um cerco econômico que asfixia o país

Na Venezuela, sanções dos EUA contribuíram para colapso econômico

© REUTERS/Maxwell Briceno/Proibida reprodução

A Venezuela enfrenta há anos as consequências de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, denominadas Medidas Coercitivas Unilaterais, além de recentes ações militares visando a mudança de governo. Estudos apontam que o uso de cercos econômicos prolongados tem se tornado uma estratégia de política externa para pressionar ou derrubar governos, a exemplo do que ocorre também com o Irã.

A Agência Brasil investigou o impacto dessas sanções, consultando especialistas e analisando estudos e relatórios da ONU. A economista e socióloga Juliane Furno, da Uerj, explica que as sanções visam “asfixiar experiências políticas que fogem ao controle dos países imperialistas”, com o objetivo de gerar descontentamento social e, consequentemente, mudança de regime.

A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, é alvo de medidas econômicas dos EUA sob alegações de proteção dos direitos humanos, defesa da democracia e combate ao narcotráfico. O bloqueio financeiro e comercial imposto ao país tem obstruído o financiamento da indústria petroleira, restringido o refinanciamento da dívida, dificultado transações monetárias e congelado ativos venezuelanos no exterior, inclusive com o confisco de 31 toneladas de ouro, avaliadas em US$ 1,2 bilhão, pelo Banco Central da Inglaterra.

Washington também colocou sob suspeita todas as transações ligadas à Venezuela, bloqueando canais financeiros com outras nações, e proibiu o pagamento de dividendos ao governo venezuelano provenientes da Citgo, sua principal filial petroleira no exterior, que foi liquidada pela justiça dos EUA para pagar credores internacionais.

A recessão na Venezuela, de 2013 a 2022, consumiu cerca de 75% do PIB, provocando a imigração de mais de 7,5 milhões de pessoas. Há divergências sobre a responsabilidade da crise, com alguns apontando para a má gestão chavista e outros para o impacto das sanções. As primeiras sanções abrangentes foram adotadas em agosto de 2017, no governo de Donald Trump, restringindo o acesso da Venezuela ao mercado financeiro norte-americano.

O economista venezuelano Francisco Rodríguez, da Universidade de Denver, reconhece o peso da gestão interna na recessão anterior a 2017, mas pondera que o embargo econômico teve um papel significativo no aprofundamento da crise. Segundo ele, as sanções interromperam as receitas do petróleo, afetando as importações de outros setores e levando a uma emigração adicional de cerca de 1 milhão de venezuelanos nos próximos cinco anos.

Juliane Furno avalia que a crise venezuelana é resultado da queda do preço do petróleo e das sanções internacionais. Ela explica que a Venezuela é um país dependente do petróleo, com mais de 95% das receitas de exportação provenientes desse produto, e que a queda de quase 70% no preço do barril em 2014 desencadeou a crise. As sanções, tanto diretas quanto indiretas, agravaram a situação.

Um estudo do economista Jeffrey Sachs aponta que a retração do setor petrolífero aumentou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018, resultando na perda de US$ 8,4 bilhões em divisas necessárias para as importações. O estudo também considera que a perda bilionária de divisas e receitas, em decorrência do bloqueio, foi o principal fator que impulsionou a hiperinflação na Venezuela, consolidada em dezembro de 2017.

A economista Juliane Furno destaca que a economia venezuelana começou a se recuperar a partir de 2022, com o relaxamento de algumas medidas no governo de Joe Biden. Dados da Cepal indicam um crescimento de 8,5% do PIB em 2024 e de 6,5% em 2025.

As sanções econômicas contra a Venezuela são justificadas pelos Estados Unidos como forma de pressionar o país a inibir violações de direitos humanos, promover a democracia e combater o narcotráfico. A lei que viabilizou o atual bloqueio foi aprovada em dezembro de 2014, sob o governo de Barack Obama, e em março de 2015, Obama editou uma ordem executiva declarando “emergência nacional” nos Estados Unidos, alegando que a Venezuela representa uma ameaça “incomum e extraordinária” para a segurança, autorizando sanções econômicas contra o país.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/na-venezuela-sancoes-dos-eua-contribuiram-para-colapso-economico

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