Brasil, 5 Anos da Vacina: Entre a Esperança e as Vidas Perdidas por Atraso
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
Há cinco anos, o Brasil marcava um ponto de virada na luta contra a Covid-19. Em 17 de janeiro de 2021, a enfermeira Mônica Calazans, participante dos testes clínicos da Coronavac, tornou-se a primeira pessoa no país a ser vacinada após a aprovação emergencial da Anvisa para duas vacinas. Trabalhando no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Mônica expressou sua emoção e esperança no momento da vacinação, um alívio em meio ao caos da pandemia que afetava inclusive sua família. “Eu chorava muito! De verdade! Porque a gente estava passando por um momento traumatizante, e o meu irmão estava com covid na época. E eu também chorei de emoção, de alegria, porque a ciência estava dando um passo importante para acabar com aquela tragédia que estava assolando o mundo”. A vacinação em todo o país teve início no dia seguinte, com a distribuição de um primeiro lote de 6 milhões de doses da Coronavac, importadas e posteriormente produzidas pelo Instituto Butantan.
O reforço da campanha veio em 23 de janeiro com as primeiras 2 milhões de doses da vacina Oxford/Astrazeneca, trazidas da Índia pela Fiocruz, que também iniciou sua produção nacional. A prioridade foi dada aos grupos mais vulneráveis, incluindo profissionais de saúde, idosos institucionalizados, pessoas com deficiência e indígenas, em um período marcado pela agressividade da variante Gama.
Embora a vacinação tenha avançado lentamente devido ao número limitado de doses, os resultados positivos logo se manifestaram. Dados do Observatório Covid-19 Brasil apontaram para uma queda significativa nas hospitalizações e mortes entre idosos já a partir de abril. Estimativas indicam que, nos primeiros sete meses da campanha, cerca de 165 mil hospitalizações e 58 mil óbitos foram evitados nessa faixa etária.
Com o aumento da produção nacional e a aquisição de mais imunizantes, um ano após o início da campanha, 339 milhões de doses haviam sido aplicadas, cobrindo 84% da população brasileira. Cálculos apontam que a vacinação preveniu 74% dos casos graves e 82% das mortes esperadas, salvando mais de 300 mil vidas.
Apesar dos benefícios inegáveis, um estudo do Observatório Covid-19 Brasil também apontou que o atraso no início da vacinação custou caro, com a estimativa de que 47 mil vidas de idosos poderiam ter sido salvas com o início antecipado da campanha. Paola Falceta, da Avico, lamenta a perda de sua mãe, vítima da Covid-19 em janeiro de 2021, e critica a negligência do governo federal da época na aquisição de vacinas. “Mas a maioria das pessoas queria acesso à vacina, e muitos dos que morreram foram as pessoas que poderiam ter tomado a vacina antes e não conseguiram. E essa falta foi imposta pela própria gestão, que decidiu não comprar, não negociar todos os tipos de vacina existentes”.
Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais reforça essa avaliação, concluindo que o Brasil poderia ter evitado 400 mil mortes se a vacinação tivesse começado 40 dias antes, com mais doses e medidas de isolamento. Ana Lucia Lopes, que perdeu o companheiro para a doença, expressa sua revolta ao lembrar que ele não teve a chance de ser vacinado. “Um mês depois que o Cláudio faleceu, eu fui tomar vacina. Nós tínhamos a mesma idade, então, ele iria tomar no mesmo momento. E é muito revoltante pensar isso, que ele não teve essa oportunidade. Imagina quanta gente poderia ter tomado a vacina, e tido a chance de sobreviver”.
A CPI da Covid-19, realizada em 2021, também apontou falhas do governo federal na condução da pandemia, incluindo a demora na aquisição de vacinas, o que contribuiu para o aumento de casos e mortes. O relatório final da CPI sugeriu o indiciamento de 68 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e ex-ministros da Saúde, mas o pedido foi arquivado na época. Em 2023, o ministro do STF Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos denunciados pela CPI.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2026-01/ha-5-anos-brasil-aplicava-primeiras-doses-de-vacina-contra-covid-19
