Das ruas ao palco: artistas pernambucanos transformam a periferia em arte de Natal
© HANS VON MANTEUFFEL/Divulgação
A trajetória de George José Mendonça, conhecido como Bob Brown, é um exemplo de superação e transformação. De menino que revirava o lixo no Alto do Morro da Conceição, em Recife, para ajudar em casa, ele se tornou percussionista, transformando os sons da vida em música. Segundo Bob, essa metamorfose foi inspirada por Lucas dos Prazeres, músico que desenvolve projetos sociais na comunidade onde ambos cresceram.
Lucas convidou George para o Centro Maria da Conceição, um projeto comunitário construído em um terreno doado por sua avó. Bob relembra que Lucas “segurava a mão da gente. Pegava as garrafas e enchia de areia e de pedrinhas. Depois, vedava, pintava e fazia isso aquilo virar um instrumento”.
Anualmente, Bob assiste ao espetáculo “Baile do Menino Deus”, onde Lucas se apresenta. “O que me impressiona no Lucas é o amor que ele tem pela música e pela dedicação por quem precisa”, afirma. No espetáculo deste ano, Lucas interpreta um anjo, incorporando elementos da cultura local, como o cavalo marinho e o coco de roda.
Lucas dos Prazeres, de 41 anos, também coordena projetos como o ponto de cultura Negras Raízes e a Orquestra dos Prazeres, com o objetivo de formar cidadãos através da arte. “A minha concepção de criar essa orquestra era justamente porque nas escolas de música não ensinam a diversidade do Nordeste”, explica. A orquestra-escola já beneficiou mais de 300 jovens, incluindo Bob Brown, que hoje possui uma carreira consolidada e já tocou com grandes nomes da música brasileira, como Naná Vasconcelos. A visita de Naná Vasconcelos ao morro foi crucial para dar visibilidade aos projetos sociais de Lucas.
Outro artista que se destaca no cenário pernambucano é Ellan Barreto, o Okado do Canal, de 32 anos. Criado na Favela do Canal, ele desenvolve projetos de hip hop para a comunidade. Uma de suas alunas, Wilyane, de 11 anos, participa de batalhas de break e expressa sua alegria com as aulas: “Eu me sinto uma família com minhas amigas. O Okado é muito divertido. Quero ir vê-lo no palco pela primeira vez neste ano”.
Okado também promove a conscientização ambiental, incentivando o descarte correto e o reaproveitamento de materiais. “A gente está montando um espetáculo com os alunos de break. E o figurino está sendo montado a partir de materiais recicláveis”, conta.
Arilson Lopes, de 51 anos, interpreta o personagem Mateus no “Baile do Menino Deus” e também atua como palhaço no grupo Doutores da Alegria, levando alegria a crianças hospitalizadas. “O Natal, pra mim agora, é sinônimo de Baile do Menino Deus. Há 22 anos, eu não passo Natal com a minha família”, declara Arilson, que coordena as atividades do Doutores da Alegria.
A cantora Sue Araújo, solista do espetáculo há 12 anos, também desenvolve um projeto em uma escola pública na Mustardinha, utilizando a música para tornar as aulas mais interessantes. “Eu fui a primeira mulher na minha família a se graduar. É o que eu quero para os meus alunos também. Que eles brilhem”, afirma Sue, que busca inspirar seus alunos a alcançar seus sonhos.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2025-12/artistas-perifericos-de-auto-de-natal-lideram-lutas-em-comunidades
