“Consórcio da Paz” ou “Consórcio da Morte”: A Guerra Semântica no Rio de Janeiro

Especialistas criticam retórica de governadores sobre combate ao crime

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Em meio a controvérsias sobre a Operação Contenção, que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro, governadores de sete estados, incluindo Goiás, articulam o “Consórcio da Paz” como uma estratégia para enfrentar o crime organizado. A iniciativa, liderada pelo governador fluminense Cláudio Castro, busca integrar ações entre os estados.

O sociólogo Ignacio Cano, da UERJ, critica a denominação “Consórcio da Paz”, argumentando que ela distorce a realidade da operação policial, que ele sugere ser mais adequadamente chamada de “Consórcio da Morte”. Cano ainda aponta para o uso retórico do termo, que, segundo ele, expõe a letalidade das ações promovidas pelos governos de direita.

Além de Castro e Caiado (Goiás), o consórcio é composto pelos governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Romeu Zema (Minas Gerais), Jorginho Mello (Santa Catarina), Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul) e Ibaneis Rocha (Distrito Federal).

Especialistas em segurança pública também têm questionado o uso de termos como “narcoterrorismo” por autoridades, incluindo os governadores Castro, Tarcísio e Zema. Jacqueline Muniz, antropóloga e cientista política da UFF, critica o termo, afirmando que ele “oculta incompetências, incapacidades e oportunismos políticos”. Ignacio Cano reforça essa crítica, argumentando que o termo é conceitualmente equivocado, uma vez que o terrorismo está associado a objetivos políticos, enquanto o narcotráfico busca o lucro.

Enquanto isso, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 724/25, de autoria do deputado Coronel Meira (PL-PE), que visa ampliar o conceito de terrorismo para incluir o tráfico de drogas ilícitas. A proposta, já aprovada na Comissão de Segurança Pública, ainda precisa passar pelas comissões de Constituição e Justiça e de Cidadania, e pelo Plenário da Câmara e do Senado.

A pressão internacional também se faz sentir, com governos como os da Argentina e do Paraguai classificando facções como o PCC e o Comando Vermelho como terroristas. Especialistas alertam que a adoção do termo “narcoterrorismo” no Brasil pode fragilizar a democracia e aumentar o risco de interferências externas.

Outra crítica recorrente é o uso da linguagem de “guerra às drogas”. Jonas Pacheco, da Rede de Observatórios da Segurança, argumenta que essa terminologia valida ações violentas e estigmatiza a população pobre e negra em territórios vulneráveis. Especialistas defendem que a segurança pública deve gerar segurança e preservar vidas, e que o uso da força deve respeitar os parâmetros legais, com fiscalização do Ministério Público.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-11/especialistas-criticam-retorica-de-governadores-sobre-combate-ao-crime

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