Avanço da IA corrói financiamento do jornalismo profissional no Brasil

© REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Proibida reprodução

Cresce debate sobre o futuro do jornalismo digital no país. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu em abril uma investigação sobre a conduta do Google e os impactos da Inteligência Artificial (IA) no mercado de mídia. A autarquia avalia se a gigante de tecnologia abusou de sua posição dominante ao empregar conteúdos jornalísticos em suas ferramentas de IA sem remunerar adequadamente os veículos.

Em um cenário de disputas, alguns veículos de imprensa já buscam soluções individuais. Dois grandes jornais brasileiros, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, fecharam acordos privados com a OpenAI e o Google, respectivamente. O acerto da Folha com a OpenAI ocorreu após o jornal processar a empresa de IA pelo uso de seus conteúdos.

O que faz o Cade

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é uma autarquia federal, atuando na esfera do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Seu propósito é garantir a livre concorrência no mercado brasileiro, prevenindo e reprimindo infrações econômicas como cartéis e abuso de poder. O órgão pode instaurar processos administrativos, investigar empresas e aplicar multas para assegurar um ambiente competitivo equilibrado.

Avanço da IA prejudica portais de notícias

A investigação do Cade surge em um contexto de crise no jornalismo digital, que afeta veículos de todo o Brasil, incluindo os de Goiás. O avanço da IA e os resumos oferecidos por buscadores na internet têm diminuído o tráfego direto de usuários em sites jornalísticos. Desde maio de 2024, a situação se intensificou com o AI Overviews do Google, que faz com que parte dos internautas se restrinja aos resumos das IAs, sem clicar nos links originais. Essa prática tem prejudicado o financiamento do jornalismo profissional.

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que presta assessoria a 152 veículos online, aponta que um de cada quatro de seus portais associados perdeu mais de 20% da audiência em 2025. Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da Ajor, classificou a queda como “preocupante”, impactando a atração de publicidade e o financiamento baseado em métricas de audiência. Segundo Carla, “O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”. Um exemplo do impacto financeiro foi a demissão de 21% dos funcionários do veículo Business Insider em maio de 2025. Barbara Peng, da direção executiva, disse que “Setenta por cento do nosso negócio apresenta algum grau de sensibilidade ao tráfego. Estamos reduzindo o tamanho geral da nossa empresa”.

Preocupação com a informação

Além das perdas financeiras, especialistas e a Ajor alertam para a integridade da informação. Os resumos de IA, ao não oferecerem o conteúdo completo das reportagens, podem gerar descontextualização e plágio. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e outros profissionais temem que isso prejudique o debate público e impulsione a proliferação de fake news.

Marco legal emperrado

Diante desse cenário, um projeto de lei (PL 2338 de 2023), o Marco Regulatório da IA, tramita na Câmara dos Deputados desde março de 2025. A proposta, que chegou do Senado, prevê que as plataformas digitais remunerem pelo uso de conteúdos protegidos pela Lei de Direitos Autorais, como é o caso das reportagens. O governo federal apoia a aprovação. Marcos Alves de Souza, secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, afirmou em audiência pública que o uso não autorizado de conteúdo jornalístico para treinar sistemas de IA, sem a aprovação do PL, viola ao menos sete dispositivos da lei de direito autoral.

Apesar da prioridade anunciada pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), o tema não avançou no último semestre. Samira de Castro, presidenta da Fenaj, revelou que “O lobby das big techs é muito forte. Elas querem tirar toda essa parte que fala de direito autoral”. A assessoria de Hugo Motta informou que a votação do projeto deverá ocorrer somente após as eleições de outubro, pois depende da manifestação do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). O relator, por sua vez, defende que o tema precisa ser mais debatido, questionando: “Como é que isso vai funcionar para um artista independente? A operacionalidade eu tenho dúvida de como isso vai funcionar”.

Empresas de tecnologia criticam o texto que veio do Senado. Organizações empresariais, incluindo a Associação das Empresas de Tecnologia (Brasscom), alegam que o dispositivo sobre direitos autorais pode isolar o Brasil no desenvolvimento da IA e impactar investimentos em infraestrutura digital.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-08/avanco-da-ia-corroi-financiamento-do-jornalismo-profissional-no-brasil

Redação Extra News Goiás
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