Documentos inéditos de Etchegoyen revelam tortura e repressão na ditadura militar

Com documentos inéditos, filme expõe estrutura clandestina da ditadura

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Uma nova luz é lançada sobre os anos sombrios da ditadura militar no Brasil com a revelação de documentos inéditos pertencentes ao coronel Cyro Guedes Etchegoyen, uma figura central na inteligência do Exército. O acervo, que detalha o funcionamento da estrutura clandestina de repressão e os bastidores do período mais violento do regime, serve como alicerce para o documentário Bandidos de Farda, que será lançado neste domingo (17) no canal do ICL Notícias. A descoberta desses arquivos pode reacender investigações sobre crimes de Estado, conforme já alertado por autoridades internacionais.

A Rede Clandestina de Repressão da Ditadura Militar

A investigação jornalística, conduzida por Juliana Dal Piva, desvenda uma complexa teia de relatórios secretos, manuais de interrogatório e tortura, além de registros de monitoramento político que comprovam a existência de uma política sistemática de perseguição, desaparecimentos forçados e violência estatal durante o regime militar. Os materiais inéditos trazem à tona informações sobre cursos de interrogatório e tortura ministrados a oficiais brasileiros no exterior, relatórios de espionagem política datados dos anos 1980 e, ainda mais alarmante, registros de vítimas que permanecem oficialmente desconhecidas pelo Estado brasileiro até hoje.

Um dos personagens mais proeminentes nesse cenário é o coronel Cyro Etchegoyen, que atuou como chefe da contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE) entre 1969 e 1974. Pesquisadores da ditadura militar o identificam como um dos arquitetos da profissionalização dos métodos repressivos empregados pelos órgãos de inteligência da época, sendo fundamental na consolidação de mecanismos clandestinos de interrogatório e repressão.

Estudos históricos apontam Etchegoyen como um dos articuladores da infame “Casa da Morte”, um centro clandestino de tortura mantido pelo regime em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Conhecida por submeter presos políticos a tortura física e psicológica, desaparecimentos forçados e execuções secretas, o local também servia como campo de treinamento e experimentação de técnicas repressivas. O documentário Bandidos de Farda ressalta que essa estrutura criminosa não era composta apenas por militares uniformizados, mas também por uma rede de agentes clandestinos.

Repercussão Internacional e Chamado à Justiça

A abrangência da investigação liderada por Juliana Dal Piva, que teve suas primeiras reportagens divulgadas pelo ICL Notícias, já ecoou internacionalmente. Bernard Duhaime, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, manifestou que as revelações exigem a reabertura imediata de investigações sobre os crimes perpetrados por militares brasileiros durante o período.

A própria jornalista Juliana Dal Piva, em entrevista à Agência Brasil, explica a escolha do título Bandidos de Farda para a produção: “Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. Não estamos falando apenas de militares cumprindo ordens burocráticas. Existia uma máquina preparada para sequestrar, torturar, matar e desaparecer com corpos. E, muitas vezes, essas operações contavam com homens treinados especificamente para agir como assassinos clandestinos.”

Violência Sexual e a Memória da Ditadura

O documentário também lança luz sobre a violência sexual praticada por agentes da repressão, revelando um caso de estupro documentado nos arquivos analisados. A jornalista enfatiza a importância dessa constatação: “O estupro aparece nos documentos como instrumento de terror e humilhação. Isso é muito importante porque, durante décadas, a violência sexual da ditadura ficou invisibilizada. A pesquisa ajuda a mostrar como o Estado utilizava todos os mecanismos possíveis para destruir física e emocionalmente as vítimas.”

Para pesquisadores e defensores dos direitos humanos, a análise dos documentos atribuídos ao coronel Cyro Etchegoyen representa um marco. As informações podem abrir novas frentes para investigações históricas e jurídicas de crimes ainda não totalmente elucidados, fortalecendo o debate sobre a memória da ditadura militar no país.

Juliana Dal Piva, que dedica cerca de 15 anos de sua carreira jornalística e literária a investigações sobre o tema, é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, lançado em 2025. Em suas declarações, ela reitera o percurso da apuração e a relevância de se revisitar o passado.

A investigação que culminou em Bandidos de Farda é fruto de um longo trabalho com documentos da ditadura militar. “Essa investigação é resultado de muitos anos trabalhando com documentos da ditadura militar. A minha dissertação de mestrado foi um estudo de caso sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. Eu defendi em 2016, num período em que houve muitas descobertas importantes sobre o caso e também começaram as primeiras ações no Supremo Tribunal Federal questionando a Lei da Anistia”, disse Dal Piva sobre o início do processo.

Ela também observa uma mudança no debate público sobre memória e ditadura: “Mudou muito. Eu acompanhei como repórter o julgamento sobre a revisão da Lei da Anistia, em 2014. Depois disso, o Brasil entrou em uma espécie de interrupção desse debate, especialmente com a ascensão da extrema direita entre 2014 e 2015. Houve um bloqueio dessa conversa pública sobre memória e justiça.” A jornalista ainda ressalta o papel fundamental do audiovisual para “desinterditar” essa discussão.

Ao discorrer sobre o que mais a surpreendeu nos arquivos do Coronel Cyro Etchegoyen, Juliana destaca: “O grau de preparação. Os manuais de interrogatório, os cursos no exterior, a sofisticação da vigilância. Havia um planejamento muito estruturado para perseguir pessoas. E muitas vítimas nem participavam de organizações armadas. Os documentos desmontam completamente a narrativa de que havia uma guerra entre dois lados equivalentes.”

Questionada sobre a conexão entre esse passado e o presente do Brasil, a jornalista é categórica: “Totalmente. O que vimos nos anos recentes foi uma caminhada ao autoritarismo. Tentativas de censura, perseguição, espionagem de jornalistas e magistrados, o uso político de estruturas de inteligência como a chamada Abin paralela [núcleo clandestino de espionagem que funcionou dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para monitorar adversários políticos]. Estruturada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Existem consequências quando um país não enfrenta o próprio passado.”

Sobre a transposição da investigação para o formato documental, Dal Piva expressa seu entusiasmo: “Foi uma experiência muito intensa. Eu já tinha feito podcast, reportagem investigativa, mas nunca uma produção audiovisual dessa dimensão. O ICL trabalha muito com vídeo e a gente quis construir uma narrativa acessível sem perder rigor histórico. Estou muito orgulhosa da equipe e do resultado.”

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-05/com-documentos-ineditos-filme-expoe-estrutura-clandestina-da-ditadura

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