UNESCO destaca valor de sítios protegidos e alerta para riscos no Brasil
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Relatório da Unesco Alerta para Valor Estratégico de Áreas Protegidas diante de Crises Climáticas
Paris, França – Um estudo abrangente da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado nesta terça-feira (21), em sua sede na capital francesa, lança luz sobre a contribuição inestimável dos seus sítios protegidos para a saúde do planeta e o bem-estar humano. O documento destaca a capacidade única dessas áreas da Unesco de sustentar a vida selvagem e as comunidades, mesmo em um cenário global de declínio ambiental acentuado, posicionando-as como ativos cruciais no combate às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.
O relatório inédito, intitulado People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions (Comunidades e natureza nos Sítios da Unesco: contribuições locais e globais), pela primeira vez, analisa a rede completa de mais de 2.260 sítios da Unesco, que incluem Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais. A área combinada desses locais excede 13 milhões de quilômetros quadrados, uma extensão maior que a China e a Índia juntas, demonstrando a magnitude do impacto da conservação promovida pela organização.
Polo de Estabilidade para a Vida Selvagem
Enquanto a população de animais selvagens globalmente registrou uma queda drástica de 73% desde 1970, o relatório aponta um contraste significativo: as espécies que habitam as áreas protegidas pela Unesco mantiveram-se comparativamente estáveis. Esses sítios da Unesco são verdadeiros repositórios de vida, abrigando mais de 60% das espécies mapeadas em todo o mundo, sendo que cerca de 40% delas são endêmicas, ou seja, não encontradas em nenhum outro lugar do planeta.
No Brasil, dois exemplos notáveis dessa riqueza são o Parque Nacional de Iguaçu, reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco em 1986, e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que integrará a lista durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Nova Delhi, na Índia, em julho de 2024. A diversidade biológica do Parque Nacional de Iguaçu é impressionante, conforme a própria Organização: “A área é rica biodiversidade inclui mais de 2000 espécies de plantas, 400 espécies de aves e possivelmente até 80 mamíferos, bem como inúmeras espécies de invertebrados”. Já os Lençóis Maranhenses, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, abrigam quatro espécies ameaçadas de extinção – o guará, a lontra-neotropical, o gato-do-mato e o peixe-boi-marinho –, além de cerca de 133 espécies de plantas, 112 de aves e pelo menos 42 de répteis.
Reservatórios de Carbono e Resiliência Climática
Além de serem bastiões da biodiversidade, os sítios da Unesco desempenham um papel crucial na regulação climática global. O documento revela que esses locais armazenam cerca de 240 gigatoneladas de carbono – volume equivalente a quase duas décadas das atuais emissões globais, caso fosse liberado. Anualmente, as florestas contidas nesses sítios de conservação são responsáveis por aproximadamente 15% do carbono absorvido por florestas em todo o mundo, sublinhando sua importância na mitigação das mudanças climáticas.
Contudo, a Unesco ressalta que, apesar de sua relevância, essas áreas enfrentam pressões crescentes. Quase 90% dos sítios de Patrimônio Mundial estão sujeitos a elevados níveis de estresse ambiental, e os riscos relacionados ao clima aumentaram 40% na última década. O relatório projeta que mais de um em cada quatro sítios da Unesco poderá atingir pontos de ruptura irreversíveis até 2050, com potenciais desfechos como o desaparecimento de geleiras, o colapso de recifes de coral e a transformação de florestas em fontes de carbono.
Comunidades e Economia Global em Foco
A profunda interconexão entre natureza e comunidades é outro ponto chave do estudo. Os sítios da Unesco abrigam cerca de 900 milhões de pessoas, o equivalente a 10% da população mundial. Nesses territórios, mais de mil línguas estão documentadas, e pelo menos 25% deles abrangem terras e territórios de povos indígenas, percentual que chega a quase 50% na África, Caribe e América Latina. Em termos econômicos, aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) global é gerado nessas áreas e suas adjacências.
Khaled El-Enany, diretor-geral da Unesco, enfatizou o impacto positivo dessas áreas. “Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados”, declarou. El-Enany reforçou que o documento é um apelo urgente para “ampliar o grau de ambição e reconhecer os sítios da Unesco como ativos estratégicos para enfrentar a mudança do clima e a perda de biodiversidade, além de investir imediatamente na proteção de ecossistemas, culturas e modos de vida para as gerações futuras”.
Caminhos para o Futuro: Investimento e Governança Inclusiva
O relatório demonstra que ações preventivas podem reduzir significativamente os riscos futuros: cada 1 grau Celsius (°C) de aquecimento evitado pode reduzir pela metade o número de sítios da Unesco expostos a grandes disrupções até o fim do século. Apesar disso, o potencial desses territórios protegidos ainda é subexplorado nas políticas climáticas; enquanto 80% dos planos nacionais de biodiversidade os incluem, apenas 5% dos planos climáticos fazem o mesmo.
Para reverter essa tendência, a Unesco recomenda uma intensificação das ações, baseada em quatro pilares prioritários: restaurar ecossistemas para fortalecer a resiliência; promover o desenvolvimento sustentável por meio da cooperação transfronteiriça; integrar de forma mais ampla os sítios da Unesco aos planos climáticos globais; e adotar uma governança mais inclusiva com os povos indígenas e as comunidades locais.
A Unesco reitera que os sítios sob sua proteção são exemplos concretos de como pessoas e natureza podem prosperar juntas. Desde a estabilização de populações de animais selvagens até a recuperação bem-sucedida de gorilas-das-montanhas em áreas de conflito, esses locais atestam o que é possível alcançar com proteção sustentada e apoio comunitário. O documento, elaborado em parceria com mais de 20 instituições de pesquisa, conclui com um chamado claro: “Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas”.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-04/unesco-destaca-contribuicao-de-seus-sitios-para-o-meio-ambiente-global
