Calango Careta invade Brasília com alegria, tradição e crítica social
© Joédson Alves/Agência Brasil
Em meio à folia do Carnaval, um cortejo peculiar chamou a atenção na Asa Norte, em Brasília. Um calango gigante, símbolo do bloco Calango Careta desde 2015, desfilou pelas ruas, celebrando o “carnaval de vizinhança” com a coletividade como principal regra.
Diferente dos grandes blocos que se concentram em áreas isoladas, o Calango Careta opta por serpentear entre os prédios residenciais, promovendo uma festa mais intimista e próxima da comunidade.
A alegoria do animal do Cerrado, confeccionada em bambu, remete ao dragão do bloco pernambucano “Eu Acho é Pouco”, e comunica a importância da preservação do bioma, acompanhado por um boneco de saruê. O educador social Gabriel Ballarini, responsável por dar vida ao boneco, expressou seu orgulho em participar da festa. “Basicamente, tenho que acenar para a galera e pular. Pesa um pouco, tem uns quatro quilos. Mas, estou me sentindo muito orgulhoso hoje”, disse.
O bloco atrai foliões de todas as idades. Ana Bastos, moradora de Brasília há 19 anos, levou sua filha Helena Louzada para aproveitar a festa, e a recifense confirmou que a capital federal não deixa a desejar na folia. “Os bloquinhos são uma delícia, há animação e tranquilidade”, disse. Pedro Tarcísio, fantasiou o filho Rui, de apenas um ano e quatro meses, de capivara. “Este é o nosso bloco favorito. Mostrar os instrumentos, os animais o deixam muito apaixonado por tudo isso”, afirmou.
A estética do Calango Careta mistura cultura popular e elementos psicodélicos, com artistas fantasiados, palhaços e acrobatas guiando o público. Vanessa Cândida Rezende, apoiadora do bloco, espalhou glitter entre os foliões. “Tenho glitter no corpo, em casa, em todos os cantos. Essa é a alegria do carnaval que levaremos para o resto do ano e, por isso, estou aqui regando um jardim de glitter”, disse.
Em 2026, o Calango Careta prestou homenagens ao filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. A jornalista Ana Chalub, fantasiada de Dona Sebastiana, personagem do filme, explicou sua inspiração: “O início já ocorre em um dia de carnaval e a gente achou que tinha tudo a ver com o momento político e por ser super favorável ao filme. Para a preparação da personagem, tive até que aprender a colocar bobs no cabelo curtinho”. Luiz Bragança, seu companheiro, vestiu uma fantasia de orelhão. “O carnaval é o espaço de tempo para a gente tentar outras possiblidades e fazer algo que não está no nosso dia a dia. É o momento de celebrar a nossa cultura, nossa música”, disse.
A Orquestra Camaleônica, fanfarra do bloco, embalou o cortejo com ciranda, frevo, maracatu e sucessos da MPB, promovendo uma interação próxima com o público. A estudante Mariana Junqueira Marini, fantasiada de Backyardigans, comentou: “Minha mãe sempre me levou para o carnaval, mas eu não curtia muito. Agora, gosto mais porque venho com minhas amigas”.
A mistura de gerações é uma marca do Calango Careta. A fisioterapeuta Gabriela Barcellos, grávida de 8 meses, planeja criar seu filho curtindo o carnaval. A aposentada Mara Carvalho, de 75 anos, compareceu ao bloco com a família para perpetuar a tradição: “Desde pequenininha, eu gosto muito de carnaval. Minha mãe, minha irmã, meu irmão, todo mundo brincava”, disse.
O Calango Careta, que divulga o local de saída horas antes do cortejo para criar expectativa, também inspirou a fábula “A Fábula do Calango Careta ou a Folia de Mil Dias”, utilizada em escolas para ensinar sobre cultura popular e pertencimento. Na próxima sexta-feira, será exibido o documentário “Calango Careta: 10 Anos de Eterno Carnaval”, que conta a história do bloco.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-02/calango-careta-ocupa-brasilia-com-alegorias-orquestra-e-arte-circense
