Cotas na Uerj: De “burro sem rabo” à gestão pública, ex-alunos relatam transformação e debatem futuro da política
© Fernando Frazão/Agência Brasil
A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), pioneira na adoção de cotas sociais e raciais em 2003, está revisando sua política de ação afirmativa, com o objetivo de conectar ex-alunos e mapear suas trajetórias profissionais. A iniciativa ocorre às vésperas da segunda revisão legislativa do sistema de cotas da universidade, prevista para 2028.
Em um encontro recente na reitoria, ex-alunos cotistas compartilharam suas experiências e a importância da política de cotas em suas vidas. Henrique Silveira, atual subsecretário de Tecnologias Sociais da prefeitura do Rio, e egresso do curso de geografia, destacou como a cota o transformou, permitindo que ele saísse de uma condição de vulnerabilidade para assumir um cargo na gestão pública. “Ela me permitiu deixar de ser um menino atrás de uma carroça […] para hoje estar à frente da gestão pública”, afirmou.
A dentista Maiara Roque, cotista negra que ingressou na Uerj em 2013, também compartilhou os desafios enfrentados no início e como a universidade moldou sua visão de mundo e atuação profissional. Hoje, ela possui um consultório onde cresceu, atendendo sua comunidade com orgulho. “Eu acho que, de certa forma, estou devolvendo para minha comunidade essa oportunidade”, disse.
Embora as cotas tenham contribuído para reduzir a desigualdade no acesso ao ensino superior, dados do IBGE mostram que, em 2022, a porcentagem de estudantes pretos (11,7%) e pardos (12,3%) com nível superior ainda era inferior à metade da observada entre pessoas brancas (25,8%).
Ex-alunos defendem a necessidade de aprimorar a política de cotas da Uerj, com foco na questão socioeconômica. Atualmente, a universidade cruza dados de autodeclaração racial com critérios socioeconômicos, visando garantir o acesso ao ensino superior para pessoas de camadas sociais menos favorecidas. No entanto, muitos consideram o limite de renda bruta familiar por pessoa (R$ 2.277) um obstáculo, especialmente para cursos de pós-graduação.
David Gomes, historiador e ativista pelos direitos humanos, defende que a Uerj abandone a exigência de critério socioeconômico para ingresso por cotas. “A grande questão hoje, na pós-graduação, é o recorte de renda”, explicou.
A Lei 8.121/2018, que define a política de ações afirmativas da Uerj, destina 20% das vagas para cotas raciais, incluindo indígenas e quilombolas, e outros 20% para estudantes de escolas públicas que tenham cursado o ensino médio integralmente na rede. A lei também permite acumular a bolsa-auxílio com outras bolsas, o que é visto como um avanço para garantir a permanência dos estudantes na universidade.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-12/cotas-raciais-da-uerj-completam-22-anos-e-mudam-trajetorias-de-vida
