Operação Contenção: Entre o apoio popular e o debate sobre segurança pública no Rio

Especialistas criticam retórica de governadores sobre combate ao crime

© Fernando Frazão/Agência Brasil

A segurança pública emergiu como um ponto central no debate político nacional após a Operação Contenção, ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro que resultou em 121 mortes nos complexos da Penha e do Alemão, no dia 28 de outubro. Em resposta, o governo federal propôs um Projeto de Lei para endurecer as punições para líderes e membros de organizações criminosas.

O projeto está em discussão no Congresso, com o relator na Câmara, Guilherme Derrite (PP-SP), tendo apresentado a quinta versão do texto após críticas do governo. Paralelamente, tramita na mesma casa legislativa a PEC nº 18, a PEC da Segurança Pública, que define as competências da União, estados e municípios no setor.

O cientista social Mauro Paulino, especialista em opinião pública e eleições, destaca que a segurança pública ultrapassou preocupações tradicionais como economia e saúde nas pesquisas de opinião. “Essas questões chegaram muito mais próximas da população. Especialmente para os mais pobres, ficaram muito mais perceptíveis. Tornaram-se algo mais presente na vida das pessoas”, explica Paulino, referindo-se à crescente visibilidade de facções criminosas e milícias.

O estatístico Marcelo Souza, do Instituto MDA de Pesquisa, avalia que o apoio à Operação Contenção reflete uma tendência de aceitação de “um modelo mais punitivista de enfrentamento às facções”. Ele considera que operações como essa são “mais midiáticas” e, na percepção de muitos, “estão combatendo ali o bandido”. Paulino complementa, afirmando que “Por ter sido algo tão contundente, algo tão avassalador, com imagens fortes dos corpos estendidos, criou um ambiente de apoio”.

A cientista política Walkiria Zambrzycki, da UFMG, alerta que “Nós prendemos mal, prendemos muito e a sociedade ainda entende que encarceramento ou que matar bandido são as alternativas”. Para ela, é crucial que a sociedade reflita sobre as respostas desejadas dos governos na área de segurança pública. Ela ainda diz que: “a forma de atuação policial nas comunidades, nas favelas é uma forma diferente de outros bairros. Tem uma questão racial, tem uma questão social, e tem uma questão econômica”.

O jornalista Orjan Olsen, consultor em análise de dados, ressalta que o apoio à Operação Contenção varia conforme as características sociodemográficas e o posicionamento político. “O pessoal da direita justifica [a operação] e o pessoal mais progressista manifesta indignação [quanto as mortes que resultaram]. Nós temos choque de dois discursos”, aponta Olsen.

O comunicólogo Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, adverte sobre o contexto de desinformação, onde a população, com medo da violência, não vê soluções eficazes do Estado. Segundo ele, “A discussão do devido processo legal não chega na maior parte da população e nem a informação que era possível que muitos fossem inocentes”.

Meirelles conclui que, embora a população deseje uma solução para a violência, isso não implica um apoio incondicional às ações da polícia nos complexos da Penha e do Alemão. “Se nas pesquisas de opinião perguntassem ‘você a favor de que a polícia mate ou prenda alguém sem o devido processo legal? Sem que essas pessoas possam ser julgadas e condenadas?’ ou ‘você acha correto ou incorreto que a polícia mate pessoas moradoras de favelas sem que elas tenham sido condenadas antes?’, as respostas seriam diferentes.”

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-11/seguranca-publica-mobiliza-congresso-e-mostra-preocupacao-da-sociedade

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