UFRJ estreia Rádio UFRJ FM 88,9 e inicia transmissões para o Grande Rio
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
Após quase quatro décadas de uma trajetória marcada por ativismo estudantil e persistência, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concretizou um antigo sonho da comunidade acadêmica e do público carioca. Nesta sexta-feira (3), a instituição lançou oficialmente a Rádio UFRJ FM, operando na frequência 88,9 FM, prometendo ampliar a pluralidade do dial para o Grande Rio e alcançar uma audiência potencial de 10 milhões de ouvintes com uma programação diversificada e engajada. A iniciativa, fruto de uma parceria estratégica com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), emerge como um novo polo de radiodifusão pública, educativa e universitária.
De Transmissor Caseiro à Frequência Própria
A história da Rádio UFRJ FM remonta a 1989, quando um grupo de estudantes, incluindo o atual diretor e professor da Escola de Comunicação, Marcelo Kischinhevsky, deu vida à Rádio Livre. Operando de forma experimental a partir de um centro acadêmico, a emissora inicial era alimentada por um transmissor compacto, capaz de caber em uma caixa de sapatos, com conteúdo gravado em fitas cassete. Três anos depois, rebatizada como Rádio Interferência, a estação funcionou por vinte anos, ampliando sua potência graças ao ativismo estudantil.
Essa expansão, contudo, trouxe desafios. A Rádio Interferência foi eventualmente fechada pela polícia sob a acusação de ser uma emissora “pirata”, alegando interferência em operações aeroportuárias. Paradoxalmente, o episódio abriu um diálogo crucial que, anos depois, com a mediação do Ministério Público Federal e uma reorganização do dial carioca, permitiu à UFRJ garantir um canal próprio em FM. Em 2014, a universidade, em colaboração com a EBC, obteve a concessão para o 88,9 FM. Durante o período de estruturação, a Rádio UFRJ funcionou exclusivamente online e como laboratório de comunicação desde 2019, contando com o apoio de emendas parlamentares para a aquisição de transmissores, um recurso vital diante dos cortes orçamentários.
Alcance Ampliado e Emocionante Conquista
O marco definitivo para as transmissões em larga escala foi alcançado em 2025, quando a UFRJ e a EBC obtiveram a licença para instalar os transmissores no Morro do Sumaré, localizado no Parque Nacional da Tijuca. Este mês, a emissora iniciou as transmissões experimentais, expandindo sua cobertura para todo o Grande Rio. A jornada, longa e desafiadora, gerou um momento de profunda emoção para aqueles que acompanharam sua evolução. Na quinta-feira (2), ao ouvir a Rádio UFRJ no ar através de um radinho de pilha no Campus Praia Vermelha, o professor Marcelo Kischinhevsky confessou que “escorreu uma lágrima”, sentimento compartilhado em uma newsletter dirigida à comunidade acadêmica e aos ouvintes. “Mas, depois, veio uma onda de alegria”, complementou o docente. Ele narrou a reação de outro professor que, ao ver a cena, “sacou” o significado, foi até seu carro, e “despejou potência no som”, em uma celebração da “vitória da radiodifusão pública, educativa e universitária”.
Uma Programação para a Sociedade e a Juventude
A grade da nova Rádio UFRJ FM é projetada para oferecer uma programação rica e diversa. Inclui música independente, conteúdos voltados para o público infantojuvenil, programas de divulgação científica, notícias e cobertura esportiva. Além disso, a emissora integrará blocos da Rádio MEC AM, gerenciada pela EBC, fortalecendo a sinergia entre as plataformas de comunicação pública.
A aposta na música independente é um diferencial. O estudante de jornalismo Davi Maia, responsável pela seleção musical da inauguração, ressaltou a dificuldade de acesso a esse tipo de conteúdo em veículos comerciais. “Abrir a cabeça para o que está rolando na cena independente é muito difícil em uma rádio comercial”, explicou. “Você acaba tendo que prestar contas, fazer parcerias com gravadoras, mas em uma rádio pública, como a da UFRJ, oferecemos uma curadoria diferenciada”, destacou o ex-bolsista, que apresentou artistas como Luedji Luna, Marcelo D2 e Caxtrinho. Maia, que prometeu continuar contribuindo, enfatizou sua paixão: “A rádio está sempre no nosso coração, a gente nunca sai da Rádio. Comecei a fazer jornalismo musical na rádio e este hoje é o meu interesse profissional.”
Pluralidade e Combate à Desinformação
A professora de Comunicação Suzy dos Santos, uma das mais respeitadas referências em políticas de comunicação, sublinhou a contribuição vital da Rádio UFRJ para a pluralidade do dial carioca. Ela criticou a concentração da radiodifusão comercial, que, em sua análise, é “manipulada pelo lucro e, muitas vezes, usada contra os interesses sociais”, além do uso de canais abertos para fins religiosos e eleitoreiros. “A Rádio da UFRJ, ao contrário, tem uma importância imensurável [nesse cenário], porque é feita para pensar uma sociedade democrática e plural”, afirmou a professora.
O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, reforçou o papel estratégico da emissora, especialmente no contexto atual. O público-alvo prioritário, segundo ele, são jovens e adultos. “Nesse momento, de circulação de desinformação com grande agilidade, precisamos de um veículo que acompanhe a população, especialmente, a juventude, para se conectar à ela”, declarou. Medronho alertou para a fragilidade da democracia e as ameaças constantes, como a desinformação: “A minha geração lutou pela democracia, agora, a juventude precisa estar alerta”.
Chamada Pública para Novas Vozes na Rádio Universitária
Buscando uma constante renovação e o engajamento da sociedade, a Rádio UFRJ já abriu um edital para a seleção de programas que comporão a grade de 2027. A chamada pública convida propostas de dentro e de fora da comunidade acadêmica, desde que alinhadas aos princípios da emissora. O documento com todas as informações está disponível no site e nos perfis da rádio nas redes sociais.
Marcelo Kischinhevsky complementa que a intenção é “trazer a sociedade para dentro da universidade e, mais do que falar, ouvir”. A visão da nova FM é de uma rádio que não só promova a divulgação científica, tecnológica e cultural, mas que também seja um espaço para a construção de uma agenda pública de debates relevante para o estado do Rio de Janeiro. A Rádio UFRJ é parte integrante da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), uma cadeia de emissoras gerenciada pela EBC que conta com 168 afiliadas de rádio e 165 de TV em todo o país, consolidando seu papel como um pilar da radiodifusão pública brasileira.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-07/ufrj-inaugura-radio-fm-no-grande-rio
