Ensino da cultura afro-brasileira: entre avanços, entraves e a busca por uma educação antirracista
© Fernando Frazão/Agência Brasil
Em Goiás, assim como em todo o Brasil, a implementação da Lei nº 10.639/03, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, enfrenta desafios como questões religiosas e a falta de diálogo, mesmo após duas décadas de sua obrigatoriedade.
Um exemplo recente em São Paulo ilustra essa dificuldade, quando a polícia foi acionada em uma escola após um pai se queixar de um desenho de orixá feito pela filha. Apesar disso, a rede de ensino paulista busca atender à legislação, investindo em obras com temática étnico-racial e promovendo formações para os profissionais da educação. Em 2022, foram adquiridos 700 mil livros com essa temática e, desde 2024, 6,8 mil professores participam de formações sobre cultura e religiosidade africanas através do Programa Multiplica Educação Antirracista.
A professora Núbia Esteves, que leciona geografia em São Paulo, adota uma abordagem que valoriza os orixás como elementos culturais, comparando-os a figuras mitológicas de outras culturas e explorando sua relação com a preservação do meio ambiente. “Eu não trabalho religião. Eu trabalho os orixás fora da questão religiosa, considerando a questão cultural”, explica. Ela utiliza diversas ferramentas pedagógicas, como quadrinhos, literatura e rodas de conversa, para abordar a temática afro-brasileira de forma contextualizada e fomentar a reflexão dos alunos sobre ética e valores.
Apesar de sua abordagem pedagógica, a professora já se deparou com questionamentos de alunos sobre o ensino de religião em sala de aula. “Falo para eles que não é essa questão, que o trabalho com os orixás é uma forma cultural e não religiosa… Do mesmo jeito que a escola estuda a mitologia grega, as lendas indígenas, os santos em festas populares, também a gente pode trabalhar com os símbolos africanos”, pondera. Núbia defende que o conhecimento da cultura de origem religiosa é fundamental para uma educação antirracista, permitindo desmistificar preconceitos e promover uma sociedade menos racista. “Posso falar de todos esses símbolos e não necessariamente falar de religião, e que é importante a gente conhecer, porque a gente vai conhecendo a cultura de um outro povo, a gente vai descolonizando e vai desmistificando e vai sendo menos racista”, conclui.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-11/escolas-de-sp-usam-quadrinhos-conversas-para-ensino-da-historia-afro
