Baile da Ilha Fiscal: O alheamento da monarquia às vésperas da República
Palácio da Ilha Fiscal recebeu baile da Monarquia seis dias antes da Proclamação da República. Crédito: Divulgação
No próximo dia 15 de novembro, celebram-se 136 anos da Proclamação da República, momento histórico marcado, seis dias antes, por um baile oferecido pela Monarquia na Ilha Fiscal, Rio de Janeiro, em homenagem a oficiais e marinheiros chilenos. O evento, descrito pelo jornalista Medeiros e Albuquerque como “uma ilha em festa emergindo do mar, transbordante de luz e de gala”, contrastava com o clima de tensão política da época.
Laurentino Gomes, autor de um guia sobre o período, contextualiza que “o ambiente era de tensão. A conjuração estava por todo lado”, com conspirações ocorrendo em diversos espaços, inclusive nos quartéis, onde “o clima entre os militares era de franca rebeldia contra o Governo”. Apesar disso, muitos soldados que participaram do golpe não tinham consciência de que o objetivo era derrubar a Monarquia, conforme apontado pelo historiador Celso Castro.
O governo era liderado pelo Visconde de Ouro Preto, enquanto Dom Pedro II dividia seu tempo entre o Rio e Petrópolis. Marechal Deodoro da Fonseca, figura central para os republicanos, hesitava em abraçar a causa, sofrendo de problemas de saúde que geravam incertezas sobre o futuro da revolução.
A ideia de uma República no Brasil não era nova, com antecedentes como as revoltas de Olinda e Vila Rica no século XVIII, e as conjurações mineira, do Rio de Janeiro e baiana. No século XIX, ideais republicanos estiveram presentes na Revolução Pernambucana, na Confederação do Equador, na Revolução Praieira e na Sabinada. No Sul, a Revolução Farroupilha resultou na criação das Repúblicas Juliana e Rio-Grandense.
José Murilo de Carvalho, em seu verbete no “Dicionário da República”, chega a chamar a década de 1830 de “experiência republicana”, destacando a presença de “vestígios de república nas revoltas provinciais, nas agitações urbanas, nos clubes políticos, nos debates parlamentares, na imprensa”. Em 1870, foi criado o Partido Republicano, que lançou o jornal “A República” e um manifesto que defendia a necessidade de o Brasil se tornar americano, argumentando que “o elemento monárquico não tem coexistência possível com o elemento democrático”.
A professora da USP Angela Alonso, colaboradora do “Dicionário da República”, resume a queda da Monarquia como resultado de “crises confluentes”: de Estado, de partidos e representação política, e de legitimação, somadas à mobilização social. Segundo ela, “a questão em novembro de 1889 não era se a Monarquia acabaria, mas como”.
No dia da Proclamação, Deodoro da Fonseca surpreendeu a todos ao liderar as tropas, embora não tenha proclamado a República explicitamente. Angela Alonso descreve uma “sequência vertiginosa de eventos, entre iniciativas republicanas, meio planejadas, meio improvisadas, mas convergentes, e reações monárquicas, caóticas, tardias e malogradas”.
No meio do processo, o ministro da Marinha, barão de Ladário, tentou resistir à prisão e foi baleado. Após a prisão de Ouro Preto e de um conselheiro do Império, os demais ministros foram liberados. A proclamação oficial ocorreu na Câmara Municipal, liderada por José do Patrocínio, e foi celebrada com A Marselhesa e uma bandeira inspirada na dos Estados Unidos.
Dom Pedro II, ao retornar de Petrópolis, foi enviado para o exílio em Portugal. O jornalista Aristides descreveu a reação popular como “bestializada, atônita, surpresa, sem conhecer o que significava”. Angela Alonso contrapõe essa visão, afirmando que “longe de revolução popular, a República tampouco foi simples quartelada”.
Em Goiás, a notícia da Proclamação da República demorou a chegar. O viajante português Oscar Leal, em sua obra “Viagem às terras goyanas (Brazil Central)”, relata que só soube do evento em 5 de dezembro, em Corumbá de Goiás. A Província de Goiás, com uma população de 227.572 habitantes, era bem diferente do Rio de Janeiro.
Leal celebrou a notícia em Pirenópolis, e em novembro de 1890, em Rio Verde, organizou uma passeata e “marche aux flambeaux” para comemorar o primeiro aniversário da República.
A historiadora Cláudia Viscardi aponta que a Primeira República, apesar de oligárquica, apresentava “brecha para a intervenção de outsiders“, com “espaço para experiências democráticas, para a ascensão de algumas minorias e para a expansão da cidadania”. Nasr Chaul, professor aposentado da UFG, ressalta os avanços na produção de café, no setor de transporte e nas lutas sociais, incluindo a Coluna Prestes. Ele destaca ainda o domínio coronelístico em Goiás, com grupos que oscilavam no poder e faziam composições para efetivar seu poder junto ao governo central.
Fonte e Fotos: ALEGO
