Chacina na Penha: Famílias denunciam execuções após operação policial com dezenas de mortos
© Tomaz Silva/Agência Brasil
A manhã desta quarta-feira (29) foi marcada pela forte comoção na Praça São Lucas, no Complexo da Penha, onde dezenas de corpos foram enfileirados após a Operação Contenção, realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro no dia anterior. Familiares, em sua maioria mulheres, se reuniram em volta dos corpos, em meio a relatos de execuções e questionamentos sobre a ação do Estado.
Elieci Santana, de 58 anos, relatou que seu filho, Fábio Francisco Santana, 36, havia se entregado às autoridades, chegando a enviar sua localização, mas foi morto. “Meu filho se entregou, saiu algemado. E arrancaram o braço dele no lugar da algema”, disse.
Outros familiares presentes na praça também compartilharam relatos de que muitos indivíduos foram mortos mesmo após terem se rendido. Moradores da região trouxeram os corpos durante a madrugada, utilizando carros.
Tauã Brito, confeiteira que perdeu seu filho Wellington na operação, afirmou que muitos feridos permaneceram na mata durante o dia e que moradores buscaram socorrer os feridos, só após a retirada da polícia. “Ficamos lá, cada um caçando seus filhos, seus parentes. Isso aí está certo para o governo?”, questionou. Emocionada, Tauã lamentou a violência da ação: “Não vai dar em nada. A verdade é essa. Porque aqui tem um montão de gente chorando, mas lá fora tem um montão de gente aplaudindo. Isso que eles fizeram foi uma chacina”.
O advogado Albino Pereira, que representa algumas das famílias, acompanhou a movimentação e apontou para indícios de tortura e execução. “Você não precisa nem ser perito para ver que tem marca de queimadura [na pele]. Os disparos foram feitos com a arma encostada. Chegou um corpo aqui sem cabeça. A cabeça chegou dentro de um saco, foi decapitado. Então isso aqui foi um extermínio”, declarou.
Os corpos foram removidos pela Defesa Civil e encaminhados ao IML. Antonio Carlos Costa, fundador da ONG Rio da Paz, também esteve presente e criticou a letalidade da operação, questionando a ausência de outras formas de intervenção do Estado. “Não há uma invasão aqui do Estado na sua plenitude, trazendo saneamento básico, moradia digna, acesso à educação de qualidade, hospitais decentes. Por que historicamente a resposta tem que ser essa? E por que a sociedade não se revolta?”, questionou.
A Operação Contenção resultou em 119 mortes, segundo o último balanço, sendo 115 civis e quatro policiais. O governo do estado classificou a operação como um sucesso, afirmando que os mortos reagiram à ação policial e que 113 prisões foram efetuadas.
Especialistas criticaram a operação, considerando-a uma ação amadora que não atingiu o objetivo de conter o crime organizado. Jacqueline Muniz, professora da UFF, a classificou como uma “lambança político-operacional”. Movimentos sociais e de favelas também se manifestaram contra a violência, defendendo que “segurança não se faz com sangue”. Ativistas que acompanharam a retirada de corpos na mata classificaram a ação como um “massacre”.
A operação, que mobilizou 2,5 mil policiais, é a maior realizada no estado nos últimos 15 anos. Os confrontos geraram pânico e impactaram o funcionamento da cidade, com vias fechadas e serviços suspensos.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/maes-de-mortos-questionam-operacao-no-rio-arrancaram-o-braco-dele
