Mdic: Brasil negocia com EUA para evitar tarifas em produtos; prazo é julho.
© Tomaz Silva/Agência Brasil
Em um cenário de crescente pressão econômica, o Brasil intensifica suas articulações diplomáticas para afastar a iminente ameaça de uma taxação de produtos brasileiros pelos Estados Unidos. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, declarou nesta quinta-feira (2) que o governo federal atua contra o relógio em negociações cruciais com a administração norte-americana, buscando evitar tarifas adicionais sobre as exportações do país.
A corrida contra o tempo é ditada por um prazo fatal: 15 de julho. O ministro enfatizou a necessidade de uma postura firme, alinhada à diretriz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter o diálogo aberto, mesmo diante de obstáculos. “Nunca abandone a mesa de negociação”, citou Márcio Elias, reproduzindo a fala do chefe do Executivo. Ele complementou, reiterando a posição brasileira: “Quem defende o multilateralismo, como o Brasil, tem que saber lutar contra as barreiras que são impostas”.
Márcio Elias Rosa, que assumiu o comando do MDIC em abril após a saída do vice-presidente Geraldo Alckmin, tornou-se uma figura central nos esforços para mitigar a imposição de tarifas americanas. Nesta quinta-feira, o ministro integrou uma reunião virtual de alto escalão com a Representação Comercial dos EUA (USTR), contando também com a presença de membros do Ministério das Relações Exteriores e da assessoria especial da Presidência da República.
Interferência Política no Comércio
Após o encontro virtual, o ministro Márcio Elias concedeu entrevista a jornalistas, expressando sua profunda preocupação com a proximidade do prazo e os elementos externos que, em sua avaliação, contaminam o debate. “O tempo corre contra porque o prazo é 15 de julho”, alertou, referindo-se à data para o início da cobrança das sobretaxas. Ele mencionou a existência de “questões que poluem o debate”, desviando o foco do essencial.
Questionado sobre a natureza dessas influências, o titular do MDIC apontou, sem nomear diretamente, para articulações de integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Márcio Elias exemplificou: “O exemplo pode ser também a publicação por quem estava nos Estados Unidos, um ex-deputado federal, se dizendo autor, patrocinador do tarifaço. Ao mesmo tempo, alguém aqui no Brasil celebrando nas redes sociais o fato de ter sido imposto”. A referência implícita recaiu sobre o deputado cassado Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, filhos do ex-presidente.
Para o ministro, tais manifestações, embora talvez “não sejam capazes de causar algum alvoroço, mas poluem o debate político ou colocam no debate, que é econômico e comercial, um componente político que não deveria estar”. Ele foi enfático ao declarar: “Não cabe na mesa de negociação da economia, do comércio bilateral, questões ideológicas, eleitoreiras, pessoalmente oportunistas, isso não tem cabimento”. As declarações foram proferidas no Rio de Janeiro, após sua participação no 1º Fórum Econômico da Transformação Ecológica Brasileira, promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Mesa de Negociações: Diálogo Ampliado
A agenda do ministro Márcio Elias demonstrou a urgência do tema. Ele atrasou sua própria fala no evento do BNDES devido à reunião com a USTR. Segundo ele, esta foi a quarta rodada de conversas de alto nível sobre a disputa comercial, somando-se a outras oito reuniões técnicas já realizadas.
Durante a reunião virtual desta quinta-feira, além das barreiras comerciais dos EUA, foram discutidos temas amplos na pauta bilateral. Márcio Elias informou que foram abordadas a aproximação das polícias brasileira e americana para o “combate ao crime organizado transnacional, lavagem de dinheiro e a questão de imigração”. Outros tópicos incluíram a atração de data centers para o Brasil e a proteção de patentes, área na qual o ministro ressaltou que “O Brasil já atua no padrão internacional”.
Raiz da Disputa: Investigação Americana e Rebatimento Brasileiro
A decisão da USTR de propor novas tarifas americanas sobre as exportações brasileiras, anunciada no início de junho, deriva de uma investigação amparada pela Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O governo norte-americano acusa o Brasil de concorrência desleal no cenário internacional, citando o sistema de pagamentos Pix como uma das práticas que supostamente prejudicariam empresas dos Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, refutou veementemente essa acusação.
Outros argumentos utilizados para justificar a taxação também foram contestados por autoridades brasileiras. O ministro do Meio Ambiente e Mudança de Clima, João Paulo Ribeiro Capobianco, presente no encontro do BNDES, desmentiu alegações relacionadas ao desmatamento e ao comércio ilegal de madeira. Conforme Capobianco, “o desmatamento está controlado”, e o país possui um robusto sistema de rastreamento que impede a exportação de madeira ilegal. “O Ibama libera a exportação verificando toda essa cadeia de custódia, todo o processo regulamentado, registrado”, certificou o ministro.
Preocupações com a Soberania Nacional
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, igualmente se manifestou sobre as relações comerciais Brasil-EUA e a política interna. Mercadante comentou sobre uma carta pública enviada pelo senador americano Marco Rubio a Flávio Bolsonaro, agradecendo um convite para colaborar com uma eventual equipe de transição de governo no caso de uma vitória eleitoral em outubro.
Mercadante expressou profunda preocupação com o teor da correspondência, destacando que ela envolve “informações do Estado brasileiro, de estratégia, de desenvolvimento, da defesa, de tecnologia, da área de energia”. O presidente do BNDES concluiu, taxativo: “É uma afronta à soberania e aos interesses nacionais”.
Fonte e Fotos: Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-07/brasil-nao-vai-abandonar-mesa-diz-ministro-sobre-taxacao-dos-eua
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