Senacon apura publicidade irregular de apostas esportivas na CazéTV

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© Tânia Rêgo/Agência Brasil

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, instaurou uma investigação na última quinta-feira (25) para apurar possíveis ilegalidades na publicidade de apostas esportivas durante as transmissões da CazéTV, que veicula jogos das eliminatórias da Copa do Mundo 2026. A medida joga luz sobre os limites tênues entre conteúdo editorial, entretenimento e campanhas publicitárias em plataformas digitais, especialmente em um contexto de massificação das “bets” no Brasil.

A apuração da Senacon busca esclarecer a natureza das recomendações de apostas que teriam sido veiculadas pela CazéTV. Durante as exibições de partidas e programas pré-jogo, foi relatado que narradores do canal sugeriam “odds”, que indicam probabilidades e o potencial de retorno financeiro, chegando a pontuar resultados tidos como prováveis. Além disso, a plataforma teria exibido dicas explícitas sobre como e em quem apostar.

Um levantamento minucioso conduzido pelo portal ICL Notícias, que monitorou 48 confrontos transmitidos pelo canal, apontou a ocorrência de 74 sugestões de apostas. Alarmantemente, em 61% desses casos, os prognósticos não se concretizaram. As ofertas eram provenientes das três marcas de “bets” que patrocinam a CazéTV na cobertura da Copa: Bet365, Betnacional e KTO.

A Ascensão da CazéTV e o Cenário das Apostas

A CazéTV rapidamente se consolidou como um dos principais veículos para a transmissão da Copa do Mundo, disputando audiência com emissoras tradicionais. O canal detém a exclusividade da cobertura de todos os 104 jogos da competição, firmando-se como protagonista no cenário de transmissões de futebol no país.

O crescimento do mercado de apostas esportivas reflete-se na sua presença massiva como anunciante. Empresas do segmento de “bets” tornaram-se a segunda maior categoria de anunciantes durante a Copa, superadas apenas pelo setor de alimentos e bebidas. Em grandes transmissões oficiais, seja na Rede Globo, na CazéTV ou no SBT, a presença de companhias de aposta esportiva é uma constante.

Especialistas em Debate: Entre Conteúdo e Publicidade de Bets

A forma como a CazéTV integra informação, entretenimento e merchandising tem sido o cerne do debate entre especialistas. Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, destaca que, embora esse estilo funcione para marcas de consumo genérico, os limites são mais críticos quando se trata de apostas esportivas.

“Essa tentativa de interagir como algo natural com a mercadoria eles conseguem fazer bem, mas caíram no problema sério porque [aposta] esportiva é um problema de saúde coletiva, né? Saúde financeira, corpo físico e mental. E aí você transformar isso como algo do dia a dia é extremamente perigoso”, disse Santos.

Janaine Aires, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e líder do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação, observa que a internet se tornou um “terreno fértil” para a publicidade de apostas devido às regras mais flexíveis em comparação com a televisão aberta, onde a publicidade e o conteúdo editorial são blocos distintos.

“Diante da possibilidade de uma brecha, há uma migração para uma nova plataforma que não responde às regras impostas para o contexto tradicional. E aí os investidores, os financiadores, criam suas próprias regras até que, de alguma forma, existe algum tipo de freio para que as coisas não sigam fora do rumo”, explicou.

Aires ainda aponta que o modelo da CazéTV expõe uma lacuna na fiscalização, que ainda se adapta aos formatos digitais nativos, abrindo margem para estratégias de marca mais agressivas.

O Impulso das Apostas Esportivas no Brasil

O interesse por apostas esportivas tem disparado no Brasil. Um estudo de junho da Agência Macfor revelou mais de 18 milhões de buscas ativas pelo termo “bet” no mês anterior à Copa do Mundo, com seis em cada dez brasileiros planejando apostar. Nos últimos cinco anos, o interesse por “bets” no país cresceu 496%. Em contraste, houve quedas em mercados como Reino Unido (-19,6%), Portugal (-53%) e Espanha (-12,6%), enquanto a Argentina registrou avanço de 268,8%.

Economicamente, o setor de apostas é robusto. Dados do Ministério da Fazenda projetam um lucro bruto de R$ 37 bilhões para o segmento em 2025, evidenciando o gigantismo dessa indústria.

A Trajetória da CazéTV e a Evolução do Consumo

A CazéTV nasceu em 2022 de uma parceria estratégica entre a LiveMode, empresa com duas décadas de experiência em direitos de transmissão, e o streamer Casimiro Miguel, popularizado por suas lives descontraídas durante a pandemia. A Lei do Mandante (nº 14.205/2021), de 2021, que concedeu maior autonomia aos clubes para negociar transmissões, impulsionou a plataforma e enfraqueceu o monopólio da Rede Globo. Em 2022, o canal já havia transmitido 22 jogos da Copa do Mundo em colaboração com a FIFA.

Para Anderson Santos, o estilo da CazéTV configura uma cobertura esportiva com foco no entretenimento e engajamento, distinta do jornalismo esportivo tradicional.

“Você tem uma liberdade de conteúdo maior, e isso de vez em quando gera alguns problemas a partir dos comentários. Então, a gente tá vendo em casa, no celular, enfim, como se tivesse encontrando os amigos numa mesa de bar para comentar do jogo”.

Santos pondera que essa reorganização não significa o fim da televisão convencional, que ainda detém grande alcance nacional. Ele prevê que o consumo se manterá estável, adaptando-se à flexibilidade exigida pelo público atual.

“Por conta mesmo do que virou o nosso ritmo de vida, especialmente depois da pandemia, que a gente precisa estar em diferentes telas, estar trabalhando no lugar e fazendo outra coisa, enfim, trazendo essa flexibilidade do consumo”.

Janaine Aires vê na ambiguidade entre informação e entretenimento um refúgio para o modelo da CazéTV, mas também um sintoma da precarização do mercado profissional.

“O profissional do entretenimento é mais barato que o profissional do jornalismo. Fazer jornalismo é mais caro. Então dizer que não faz também é uma forma de precarizar, porque se eles dissessem ‘ah, não, a gente faz jornalismo’, por exemplo, eles teriam que obedecer às regras sindicais, né?”, pontuou.

Caminhos para a Regulamentação da Publicidade de Apostas

Atualmente, o Congresso Nacional debate duas propostas de regulamentação sobre o tema: o PL 2.478/2026 na Câmara e o PL 2.470/2026 no Senado. Ambos visam proibir a publicidade e o patrocínio de empresas de apostas esportivas e jogos online em diversos meios de comunicação e eventos pelo país. As iniciativas partem da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental.

Janaine Aires traça um paralelo histórico com a indústria do tabaco, cuja publicidade é hoje vetada. Contudo, ela alerta para a influência crescente das empresas de “bets” em múltiplos setores, o que pode dificultar a aprovação dessas restrições.

“Se eu tenho uma empresa jornalística que é patrocinada por bet, e isso já é uma realidade no país, então essa discussão não vai ser tratada no jornalismo, por exemplo. Quando a gente traz essa informação, pesquisas já apontam que o próximo congresso vai somar mais um B aos Bs que a gente já tem, que é o boi, a bala, a Bíblia e agora a Bet. Então o cenário da democracia brasileira de alguma maneira está em risco”, finalizou.

Fonte e Fotos: Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-07/caze-tv-expoe-uma-lacuna-nas-regras-da-publicidade-de-bets-no-pais

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